Top 50 da CENA – O poema musicado de Ítallo, as imagens musicadas do Cidade Dormitório, e o barulho enquanto arte do Deafkids

Pessoal tipo tirou a semana para descansar pra aproveitar o feriado legal, hein? Mas tudo bem. É tanto disco e tanta música que resolvemos olhar com mais cuidado para músicas que tinham passado batidas. Agora não tem mais erro. E tem umas novidades-novidades também, como não?

2002 e “ A Nina” são palíndromos, ou seja, lidas de trás para frente carregam o mesmo sentido. Dessa observação poética, Ítallo reúne as lembranças do seu 2002 e de sua mãe, Nina, a Nina do Avon aqui. A história de uma geração toda que viu Lula ser eleito e transformar o Brasil (“Pouco antes de 2002, PFL/ Partindo pra 2002, mapa da fome”), que viu o penta, que nem sonhava com o iPhone e a histórias das lutas de sua mãe naquele ano reunidas em um poema concreto, praticamente. Palíndromos lembram ruas sem saída. Seriam memórias engasgadas de tempos melhores? Duros, é verdade, mas esperançosos. Talvez Ítallo também fale disso. Seu álbum “Catatau” ainda tem muito a ser ouvido.  

“Não existem filmes antiguerra” é a famosa frase do cineasta Truffaut sobre uma impossibilidade intrínseca à linguagem cinematográfica. Por mais literal que um filme tente ser contra um conflito, as imagens vão carregar nuances românticas, justificativas, vão apoiar o absurdo. “Cinema Bélico?”, novo do quarteto sergipano Cidade Dormitório levanta a questão em nosso tempo, cercado de telas e imagens do horror pelo mundo – um cinema do absurdo ligado 24 horas por dia. E é justamente essa ciência de uma impossibilidade que traz ao material sua distorção lírica e sonora. Como vamos retratar o que detestamos sem afirmar o pecado? Faz sentido a questão ser colocada justamente por uma banda chamada Cidade Dormitório, não é mesmo? 

O final de “Parasita”, som de abertura de “Cicatrizes do Futuro”, novo álbum do duo carioca, acaba silenciando repentinamente com ruídos que lembram um mal contato. Depois de uma avalanche de distorção é como se eles deixassem claro o quanto é delicada a sustentação da barulheira. Um deslocamento errado e fim. Vale para uma guitarra plugada, vale para uma cultura inteira.

Direto de Ponta Grossa, Paraná, surge a ULTRALEVE, um quinteto que conta com dois integrantes da nossa banda favorita da cidade, o Hoovaranas. Mas aqui o som é um shoegaze com vocal – leve, mas não tão leve quanto o nome indica. O grupo tem pouco mais de um ano de existência e lança agora seu terceiro single, esta “Negativo”. A ULTRALEVE chega para encorpar o aparente revival shoegaze que está surgindo no país, mas com um som que tem suas próprias características para se destacar. Em breve devem ter um álbum completo e shows em Curitiba e São Paulo.

Voltamos a falar do mineiro João Carvalho, conhecido pelas aventuras com os projetos Sentidor, Rio Sem Nome e a banda El Toro Fuerte. No segundo single do seu futuro álbum “Uma Festa no Centro do Vazio”, João homenageia os dois espaços onde construiu seu trabalho: Itaúnas, no litoral do Espírito Santo, e a Serra do Caraça, em Minas Gerais. Ao mesmo tempo, pelo forte espírito clubístico impregnado na canção, dedica ela a Milton Nascimento. Não poderia ser diferente.

A vida é uma só, mas nós, não. E essa multiplicidade se apresenta nos relacionamentos, é preciso entender isso. É o que canta Lulina na delicadíssima “Outras Vezes”, esbanjando essa sabedoria ao lado de Ana Frango Elétrico, que surge na voz e no piano elétrico pontual. “O arranjo tem elementos sonoros sutis que parecem transformar a música a cada ouvida”, pontua Lulina. Faz todo o sentido. O som é o primeiro single do próximo disco da artista recifense, “Sinuosa”.  “O nome do álbum é inspirado na temática que costura as diferentes canções: o fato de nossos caminhos tomarem rumos inesperados e desvios que nos escapam do controle e que nos levam muitas vezes a boas surpresas e descobertas”, avisa a cantora.

Pensando em poder tocar em mais lugares deste país, a baiana Luedji Luna desenvolveu um belo projeto acústico – custos menores com uma proposta artística diferente. No álbum para reunir esse material ao violão não há apenas as tradicionais releituras típicas desses projetos. Entre seis inéditas, uma bela canção escrita e com participação da conterrânea Jadsa.

Michella Abu faz a diferença na percussão de diversos artistas há muito tempo: Ira, Fresno, Pitty, Arnaldo Antunes e Catto. De carreira solo ocasional, a artista volta a fazer um disco 12 anos depois de sua estreia solo para também comentar o lugar da percussão na música brasileira – elemento fundamental, mas cada vez mais apagado em turnês que cortam gastos. Ao ressaltar a força e importância da mão humana no tambor fica ainda mais belo o momento introspectivo do álbum ao lado de Catto. Ouça com atenção para notar o número de elementos percussivos – não é um beat eletrônico, distraído. Mais uma do disco: a maravilhosa “Samba da Ribeira”.

Um climinha tranquilo, jazzy total, é preenchido por um vocal gutural na primeira parte desta “Taxidermia”. É o jeitinho Papangu de ser, uma habilidade de soar leve mesmo no momento em que riffs distorcidos e um pedal duplo entram na música. É um jeito diferente e único de fazer metal – sempre com a masterização mais baixa que o padrão, exigindo que aumentemos o volume; uma raridade nessa guerra de volume alto e compressão na música digital.

As bandas jovens deste Brasil gostam de fazer música com nome de jogador de futebol, né? “Modrić”, da Pelados, “A Vida de Messi”, da Chococorn and The Sugarcanes, e agora “Maradona”, do Morro Fuji, faixa que conta com versos do tipo “Tão invencível quanto o Vasco na série A”. É o humor dessa geração, né? O quinteto do ABC Paulista junta MPB, city pop e um shoegaze moderado em seu álbum de estreia. Ficou bonito.

11 – Bebé – “Meu Peito”
12 – Exclusive Os Cabides – “Castelos de Areia” (2)
13 – Mauricio Pereira – “Casamata de Amoreiras” (2)
14 – Loulu Gilberto – “Avarandado (com Tom Veloso)” (2)
15 – Tangolo Mangos – “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça” (3)
16 – Marina Liori –  “Água na Boca (com Tori)” (3)
17 – Os Garotin – “Uma Noite Só (com Arthur Verocai)” (3)
18 – Juçara Marçal e Thais Nicodemo – “Cavaquinho” (4)
19 – Giovani Cidreira – “Música de Trabalho” (4)
20 – Bruno Berle – “Manhã” (4)
21 – Seu Jorge – “River Man (com Beck)” (4)
22 – KUCZYNSKI – “MUSIC 4 A STRIP CLUB” (5)
23 – Zélia Duncan – “Agudo Grave” (5)
24 – Mombojó – “Abaixo a Realidade” (6)
25 – Marcelo Cabral – “Grito” (7)
26 – Anitta – “Bemba (com Luedji Luna)” (7)
27 – Marabu – “Manda Beijo” (7)
28 – Buhr – “Voaria” (7)
29 – Novíssimo Edgar – “Zum Zum Zum” (8)
30 – Silva – “ROLIDEI” (8)
31 – Febem, Fleezus & CESRV – “M.P.B” (9)
32 – Rael – “Forma Abstrata” (9)
33 – Jovem Dionísio – “Nada Mais” (9)  
34 – Vandal – “AH VERDADEH DAH CIDADEH” (9)

35 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (10)
36 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa” (10)  
37 – Schlop – “Clássicos” (10)
38 – MINTTT – “Liberdade Trade Mark” (10)
39 – Ottopapi – “Meus Podres” (11)
40 – Tiny Bear – “Mathpop” (11)
41 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (12)
42 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (12)
43 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (12)
44 – Thalin – “Vagando” com Nina Maia (13)
45 – Pedro Lanches – “Vergonha” (13)
46 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (14)
47 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (14)
48 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (15)
49 – Liniker – “Charme” (17)
50 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (18)

***
* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o cantor Ítallo.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.

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Postado por Lúcio Ribeiro   dia 06/06/2026
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