Top 50 da CENA – Kamau domina o pós-Carnaval. Sofia Freire traz o mormaço. Josyara segue no pódio

Brasileiros e brasileiras, pelo visto vocês macetaram demais, hein? Semana passada foi um deserto de lançamentos e por isso nem tivemos como atualizar o top 50. Esta semana não foi muito diferente. Onde estão nossos artistas? O Carnaval acabou, vamos, gente! Força, hahaha. Brincadeiras à parte, temos coisas novas para contar. Do “Doc” do Kamau e também de uma voz de Recife nova que vocês vão amar.

Ao longo de 2023, o rapper Kamau lançou uma série de singles curtos sem contar muito sobre cada som. Aos poucos fomos percebendo que a letra inicial de cada som formava uma palavra: “DOCUMENTÁRIO”. E agora o disco “Documentário”, então, reúne estes singles e uma inédita, que chama justamente… “Documentário”. Essa inédita é quase que a explicação do projeto: “Vozes mensais, drops mentais”. Ouvido na sequência impressiona a força do conjunto em sons e versos. É o poeta que encontra na rotina do ofício o sublime do cotidiano. Ao se impor um método de escrita e lançamento, parece que o prazo funciona como motor para a criatividade e não uma prisão, como costuma ser retratada. Métodos e metáforas possíveis. Todo dia é um milagre, a gente que não enxerga. Discaço, Kamau. Discaço. 

Em uma playlist que fez com o nome de “Mormaço”, a pernambucana Sofia Freire enfileira referências interessantes: Grimes, Letrux, Sade, Kate Bush. Quando damos o play na faixa homônima, “Mormaço”, vemos como Sofia usa cada uma dessas tintas para pintar seu próprio quadro. Cada referência filtra pelo seu jeito de dosar o pincel, escolher as texturas e as formas. Sua apresentação no Spotify fala em Björk e Tetê Espíndola e ela não poderia estar mais certa. Difícil de colocar em palavras, mas tem uma originalidade vocal e lírica de Sofia que te deixará vidrado(a). É das pessoas que tão tocando a música brasileira adiante, saca?    

Após dois álbuns autorais, a baiana Josyara escolheu o dia de Iemanjá, em fevereiro, para lançar um EP dedicado ao repertório da Timbalada. Ao retirar a percussão das músicas do grupo para um formato voz e violão, Josyara dá outros tons às canções. Quer um exemplo? Diferente de Caetano Veloso, que também já verteu “Mimar Você” para voz e violão interessado em destacar sua riqueza harmônica, Josyara usa seu violão para indicar justamente onde a percussão canta e dá corpo à canção. Duas abordagens distintas que se completam. “Ralé” merece destaque também por abrir o álbum como denúncia ao genócidio que acontece agora na Palestina – mostrando como o valor político da canção original se mantém. “Muitas pessoas se utilizam da religião para massacrar outras, esquecendo que a própria figura de Jesus vem do lugar da escassez, do combate às opressões e defesa dos mais pobres. Esta é uma reflexão urgente para o mundo todo”, pontuou Josyara. A gente já botou às pressas uma música desse disco dela no top da semana passada, mas agora decidimos fazer o serviço direitinho.

“Pérola Negra”, clássico de Luiz Melodia lançado em 1973, álbum que mais parece uma coletânea, completou 50 anos no ano passado. Com um leve atraso, mas tudo certo, o EP “Pérolas Negras – Um Tributo a Luiz Melodia”, produzido por Mahmundi, faz a justa homenagem. Seis canções do álbum são revistas nas vozes de Criolo, Liniker, Mart’nália, Sandra de Sá, Anelis Assumpção e Zezé Motta. A própria Mahmundi cuida da bela “Estácio, Holly Estácio” com classe.

Após mergulhar de cabeça na obra de Dorival Caymmi, BNegão volta aos temas praieiros para começar os trabalhos do seu próximo álbum solo. “Canto da Sereia” data do final dos anos 60 na voz e caneta de Osvaldo Nunes – o que chamou atenção de Bernardo foi uma regravação da Orquestra Contemporânea de Olinda. Para quem conhece mais o BNegão do Planet Hemp, onde seu papel é sempre mais incisivo, é interessante ver ele navegando em mares mais calmos. Velejando como um Bad Brain.

Se você for noveleiro, já escutou na televisão a intensa versão de Maria Maud para “Não Sei Dançar”, que honra a fortíssima canção da Marina Lima. Tão interessante quanto é seu material autoral, como essa “02.02”, lançada no dia de Iemanjá e que dialoga com a espiritualidade Maria e sua relação com as suas relações interpessoais. Voz nova e interessante, pra se acompanhar.

Celebrar álbuns não é uma tradição que o rock brasileiro conseguiu estabelecer. Seja com shows ou com bons relançamentos, estamos carentes neste setor. Mas Pitty quebrou essa escrita e conseguiu lançar um material abrangente para celebrar os 20 anos de sua estreia com “Admirável Chip Novo”. Até aqui temos um disco com versões feitas por outros artistas, relançamento de covers que ela gravou na época que só existiam em DVD e agora um disco ao vivo que retrata o que foi a turnê dedicada a tocar o disco de cabo a rabo. De extra, o repertório da apresentação tem uma longa sessão de versões muito boas: “Sailin’ On”, do Bad Brains, “Love Buzz” do Shocking Blue, citação a “Ando Meio Desligado” dos Mutantes e “Femme Fatale”, do Velvet Underground – músicas que dão a amplitude musical da Pitty, um das muitas explicações de sua carreira bem-sucedida. Quando o rock brasileiro mainstream vivia uma época careta, foi ela que colocou na roda como a cena independente fervia bem mais. Sabe das coisas a Pitty. Ternura e hardcore.

Madre é como Luiza Pereira, ex-Inky, se apresenta agora em sua primeira aventura solo. “Sirenes” é o terceiro single do projeto. E, dentro do que será o primeiro álbum da Madre, foi colocada como última faixa. E isso tem um simbolismo todo: a música se encerra com um synth arpeg, o instrumento de Luiza na antiga banda. Uma de suas características mais reconhecidas sendo apresentada no último momento do novo álbum. Quais serão os motivos? “Tem uma certa ironia aí”, considera Luiza. E, pensando na letra, quais serão as sirenes que tocam do lado de dentro e de fora? Serão medos? O despertar de uma novidade? Uma epifania?

Mais um álbum dedicado a Caetano Veloso? A gente que não vai reclamar. Até porque a abordagem de Ayrton Montarroyos é bem diferente da de Xande de Pilares. Ayrton coloca agora em disco uma live sua dedicada ao compositor lá em 2021 feita com instrumentação minimalista comandada por Arquétipo Rafa e Rodrigo Campos. O formato mínimo caí como uma luva em canções como “Peter Gast, um lado b elegante de Caetano, que já era quieta em sua versão original, mas aqui ganha elementos eletrônicos e novos deslocamentos. Outro aspecto interessante é que Aryton se debruça sobre canções bem recentes, como “GilGal” e “Não Me Arrependo”.

Baterista da Fresno, Guerra está com a turma nos preparativos do próximo álbum do time, incluindo aí sua turnê e divulgação – recentemente gravaram vídeo com a Pabllo Vittar. Mesmo com essa trabalheira toda, ele descola tempo para aventuras solos que estão saindo agora em singles. “É Massa” é um desses experimentos, um frevo-pop. Ode à leveza, à curtição, afinal, é massa.

11 – Céu – “Coração Âncora” (7)
12 – Raidol – “Imensidão” (8)
13 – Rodrigo Campos – “Gamei” (9)
14 – Thami – “Deixa Queimar” (10)
15 – Jup do Bairro – “Amor de Carnaval” (11)
16 – Papisa – “Dores no Varal” (12)
17 – Jorge Aragão com Rappin Hood – “Mafuá” (13)
18 – Zarolcomzê – “Magnerwoura” (14)
19 – Luedji Luna e Xênia França – “Lua Soberana” (15)
20 – Chinaina – “Roubaram Minha Jóia” (16)
21 – Tuyo – “Infinita” (17)
22 – Dead Fish – “11 de Setembro” (18)
23 – Pabllo Vittar – “Pede pra Eu Ficar (Listen to Your Heart)” (19)
24 – Apeles – Todos os Santos Permitidos” (20)
25 – Jambu – “Lentamente” (21)
26 – Vandal – Violah (22)
27 – Clara Bicho – “Luzes da Cidade” (23)
28 – Parteum – “’12 6 10” (24)
29 – Psirico – “Música do Carnaval” (25)
30 – GRIYÖ – “Afropenobeat” (26)
31 – Rico Dalasam – “Jovinho” (27)
32 – Ogoin & Linguini – “Quando Tudo Começou” (28)
33 – Marabu – “Algo Me Diz” (29)
34 – Wado – “Dente D’ Ouro” (30)
35 – Tangolo Mangos – “Glauber Rocha” (31)
36 – Don L – “Tudo É Pra Sempre Agora (com Luiza de Alexandre)” (32)
37 – Giovani Cidreira e Luiz Lins – “Amor Tranquilo” (33)
38 – João Gomes – “Mais Ninguém” (34)
39 – Mart’nália – “Lobo Bobo” (35)
40 – Perdido – “30+” (36)
41 – Lori – “Me Dói, Boy (com Matias e FBC)” (37)
42 – Juyè (com Thiago Jamelão e Alisson Melo) – “Seguir” (38)
43 – tttigo e dadá joãozinho – “SEM SEGURO” (39)
44 – Rodrigo Campos e Romulo Fróes – “Um Amor Cantando” (40)
45 – Amiri – “Limbo” (41)
46 – Duda Beat – “Saudade de Você” (42)
47 – Apeles – “Lábios Mentem À Distância” (43)
48 – Giovanna Moraes – “As Mina no Poder” (44)
49 – Nelson D – “Defensor Assassinado” (45)
50 – Bruno Berle – “Tirolirole” (46)

***
* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, o rapper Kamau.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.

MITSKI – horizontal miolo página
ROYAL BLOOD – inner fixed
ROYAL BLOOD – inner fixed mobile