A gente tratou disso por aqui rapidinho no final do ano passado, mas à luz de um importante encontro de bandas (três shows) no icônico clubinho paulistano Hangar 110 neste domingo, achamos que era o caso de falarmos mais. E melhor.
Diretamente dos interiores do Brasil, com inspiração no movimento americano do “midwest emo” e sempre bem acompanhado de camadas limpas de guitarras, está estabelecido na cena nova brasileira o “emo caipira”.
Mais do que um gênero, o emo caipira se apresenta como um movimento musical que busca valorizar a cultura interiorana brasileira. E, longe de ser uma adaptação em português do rock alternativo norte-americano, a onda mescla influências gringas a particularidades locais, criando uma sonoridade singular.
Nos últimos meses, o emo caipira vem conquistando popularidade e uma grande base de fãs leais, sobretudo jovens, muitos que descobriram os artistas pela internet. Mais conhecido pelo trabalho de músicos do interior paulista, como as bandas Chococorn and the Sugarcanes, Chão de Taco, Viúva Fantasma, Mães Católicas e Jonabug, grandes expoentes do movimento, outros artistas de outros locais do Brasil também se destacam nessa linha sonora, como Bella e o Olmo da Bruxa (RS), Quarto Vazio (AL) e Memórias de Ontem (MG).
* Midwest emo no Brasil?
Segundo Ale Luz, baterista da Chococorn and the Sugarcanes, de Santa Bárbara d’Oeste, interior de SP, o emo caipira tem forte inspiração no gênero estadunidense conhecido como midwest emo, que surgiu nos anos 1990 e traz nas canções abstrações melódicas, temas mais emotivos e guitarras mais limpas e dançantes. Passaram-se 30 anos e o emo está de volta, mas agora mais longe do hardcore emotivo das bandas estadunidenses de Chicago e Minneapolis e mais próximo da música indie brasileira.
O emo caipira também se distancia daquela cena emo dos anos 2000 no Brasil, quando as bandas eram mais dramáticas, como NXZero e Fresno. O emo independente no Brasil hoje canta, com seus sotaques interioranos, sobre temáticas mais coloridas, como amizades, memórias e regionalismos.
Além de buscar a referência na sonoridade do rock alternativo do midwest emo, o próprio estilo de vida dos artistas estrangeiros se conecta ao cotidiano dos artistas no interior do Brasil, que trabalham com música de forma orgânica e sem uma grande equipe por trás: “Eu sempre achei muito legal como é um gênero em que você consegue se expressar muito bem e também faz parte você fazer as coisas dentro de casa. Fazer um negócio se divertindo com seus amigos”, comenta Ale em entrevista à Popload.
* Rock caipira!
A espontaneidade no processo de produção das músicas é perceptível na sonoridade das bandas do movimento emo caipira e, apesar das particularidades de cada uma, todas têm características em comum, tanto nos arranjos quanto nas letras.
De acordo com Pipe Bachin, guitarrista e vocalista da Chococorn, o sentimento de comunidade é bastante forte entre os artistas que, acima de tudo, buscam valorizar sua cultura regional. “Eu acho que nas nossas músicas têm esse lance: a gente é do interior, vive perto da capital, mas a gente é do interior. E querendo ou não, ir para capital sempre foi uma experiência meio surpreendente, um choque de cultura, um choque de realidade.”
Por mais que as bandas do interior de São Paulo ganhem destaque como expoentes do movimento pela cena, o tal “rock caipira” está representado em várias regiões do Brasil. Os músicos da Chococorn and The Sugarcane citam diversos artistas como pares e inspirações, em especial, os gaúchos da Bella e o Olmo da Bruxa. Em comum, todos trazem à tona seus regionalismos, que destacam a produção caseira de arte e a união entre os artistas para fazer a música acontecer.
Pietro Sartori, baixista da Chococorn, comenta sobre o fato de todos os artistas do grupo estarem de fora do mainstream no Brasil. “Eu acho que tem muito essa coisa da temática de você estar nas margens. Inclusive acredito existir algumas bandas amigas nossas que são de outras capitais que também gostam de ser chamadas de emo caipira e é legal. Se vem um artista grande gringo para cá, vai tocar em São Paulo e no Rio de Janeiro, não vai para as outras trilhões de capitais que existem no Brasil”.
* O futuro é interiorano…
Ainda que o início do movimento tenha tido forte inspiração em artistas do rock alternativo estrangeiro, os músicos do emo caipira defendem o som cada vez mais brasileiro e, consequentemente, cada vez menos gringo. De acordo com a Chococorn, os próximos projetos da banda terão mais inspirações regionais do que nunca!
“A regionalidade é um negócio que está muito por trás das nossas letras. Elas fazem com que as pessoas que são do interior também tenham uma estima de conseguir saber que é possível também criar. Então, não é só São Paulo e Rio de Janeiro que conseguem ter música, mas também cidades que têm nomes bestas como Santa Bárbara do Oeste ou Botucatu e Bauru, sabe? São cidades que não estão no fólio central do mundo ou do país, mas que têm nomes específicos de avenidas que a gente sabe que também tem muita gente que passa por lá.”
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* Neste domingo, no Hangar 110, casa tradicional do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, se apresentam uma trinca de grandes expoentes desse emo caipira em formato expandido, numa noite de celebração do gênero: a Chococorn and the Sugarcanes, os gaúchos adotados da Bella e o Olmo da Bruxa e o trio paulistano Eliminadorzinho, espécie de emo caipira da capital, por assim dizer.
** CENA viva é o nome da nova série de textos da Popload que busca jogar luz às excelentes movimentações pontuais da CENA musical independente brasileira, cada uma em sua geografia e com suas características próprias. Outros posts da série:
* BH – Beagrime: a inusitada mistura entre os sons de Londres e BH que agita a capital mineira
* RJ: Vera Fischer Era Clubber ilumina um lado B sombrio da nova cena do Rio. Com sarcasmo carioca, claro. Conheça o single “Fantasmas”
* RS: Heróis indies de Porto Alegre, banda Superguidis arma retorno aos palcos depois de 13 anos. O recomeço é em SP, no sábado
*** Este texto, a reportagem e as entrevistas são de Clara Campos