Uma banda de shoegaze toca violão, uma diva pop faz política e um grupo psicodélico brasileiro brinca de krautrock alemão. Essa é a temperatura do nosso Top 50 nesta semana. “Só no Brasil mesmo” é nossa frase favorita por aqui.
O que aconteceu no Brasil que não para de nascer banda de shoegaze legais? Apesar da barulheira, no novo álbum dos gaúchos da Bella e o Olmo da Bruxa, “Afeto e Outros Esportes de Contato”, destacamos esta bela e direta balada acústica de temática LGBTQIA+. “Deus, Gay”, que de alguma maneira ecoa a pixação de Kurt Cobain, retrata as inseguranças de um casal com o relacionamento. Um amor que infelizmente traz risco tamanho preconceito e recupera uma timidez juvenil (“Parece que eu tô na escola”). Ao fim, a pergunta cortante e angustiada: “Se Deus não existe mesmo/ Então qual é o mal da gente se amar?”.
Mesmo nas músicas mais fervidas e provocantes, Urias sempre foi muito política nas letras. É uma artista de força, uma mulher trans em busca da liberdade no Brasil, um dos países mais violentos com a população LGBTQIA+. Em “Diaba”, ela escreveu: “Sua lei me tornou ilegal/ Me chamaram de suja, louca e sem moral”. Agora, nesta incrível “DEUS”, o assunto é a colonização e a morte do Deus dos colonizados pelo colonizador: “Me lembro bem que me roubaram demais/ Levaram Deus/ E é por isso que eu não amo nunca mais”. A composição é assinada por ela com Criolo, Giovani Cidreira, Rodrigo Gorky e Nave. A música estará em seu próximo álbum, “CARRANCA”.
O que fazer na Alemanha? Ouvir krautrock, lógico. Foi isso que o pessoal do grupo paulista Bike fez durante sua tour pelo país, turnê que incluiu também Suíça, Itália, Portugal, Polônia, Inglaterra, França e Espanha. Inspirada no lendário grupo Neu! e nas imagens vistas na estrada, a banda define o som como uma “mensagem do companheirismo e espírito de equipe que sempre fica mais forte nessas turnês”. A faixa estará em “Noise Meditations”, álbum que sai no dia 5 de setembro em vinil e no Bandcamp. Uma semana depois chega nos outros streamings. Uma boa ideia para incentivar as vendas.
Em “Vem, Love”, Felipe Cordeiro encaixa uma guitarra frenética no ritmo do batuque do Amapá. Ele próprio explica: “O batuque é tocado e reverenciado por populações quilombolas do Amapá, do ladinho do meu Pará. É um ritmo afro-amazônico intenso, forte, catártico”. Para completar a receita, Felipe chamou Otto e Duda Brack. Na produção, Marcos Cuper. A percussão, um dos grandes baratos da faixa, ficou a cargo de Franci Óliver e Aiyra. A promessa de Felipe é estrear o som ao vivo em sua apresentação semana que vem no festival giga The Town, em Interlagos.
Ronaldo Bastos é dos melhores letristas da história da música brasileira. Parte do material do Clube da Esquina veio de sua cabeça iluminada de sol. Sem ficar parado no tempo e espaço, se conectou com nomes das novas gerações (de Roupa Nova a César Lacerda) e um de seus parceiros é Pélico, com quem vai lançar um álbum todinho de inéditas parcerias. Trem bão.
O humor do Pelados está bem traduzido nos títulos de “Contato”, terceiro álbum da banda. São coisas do tipo: “Planeta Oxxo”, “Whatsapp 2”, “Não Sei Fazer Refrão”. É como se a gente tivesse um acesso secreto ao grupão de zap onde estão Manu Julian, Helena Cruz, Vicente Tassara, Theo Ceccato e Lauiz. O mesmo humor percorre as faixas por dentro. Em “Enel”, por exemplo, ouvimos eles rindo pouco antes de investir no metaverso “Só de pensar no aluguel eu já me entediei, vamos para o refrão”. Em “Modrić”, ouvimos coisas do tipo: “Eu confie no Tite” ou “Sério, o Modrić tá ficando velho, ele tá ficando vermelho…”. Mas nada disso deixa o trabalho deles hermético. Logo somos parte do grupo, logo estamos rindo todos juntos, descobrindo que cada integrante tem outros trocentos projetos e embarcando em mil viagens com eles. Ou tem mais coisa aí? Uma outra piada interna ou algum outro segredo? Olho nessa turma aí, viu?
Não é exatamente uma homenagem para Rita Lee. Embora seja recheada por referências à obra de Rita, a canção é mais uma homenagem ao que há de Rita Lee em tantas e tantas pessoas. Você também é a ovelha negra da família? A gente te admira. Walfredo em Busca da Simbiose também. A faixa estará no terceiro álbum do projeto liderado por Lou Alves, “Mágico Imagético Circular”. Chega em algum momento de 2025.
E por falar em Rita… Ana Frango Elétrico regravou “Luz Del Fuego” para a trilha da série “Dias Perfeitos”, baseada na obra do bombado Raphael Montes. Se com Rita a faixa era um rock acelerado dos mais debochados, a produção dos AMABIS (Gui, Mariana e Rica Amabis) desacelera tudo para dar um ar soturno à faixa. Medo!
Tem um ano que piramos em “INTEIRA”, estreia em disco refinada de Nina Maia. Pelo visto, não estávamos sós. A turma do selo britânico Mr. Bongo também gostou e resolveu contratar a artista. Para começar a parceria, uma versão de luxo de “INTEIRA” com quatro inéditas. “Manha” e seu piano que canta a melodia e carrega a bela voz de Nina podia estar na versão original do álbum, mas faltou tempo. Agora não falta mais.
Composição de Rodrigo Campos, “Um Minuto” é um samba de arranjo tensionado por cordas em contraste com um violão leve e solto em “Sambas do Absurdo Vol. 2”. Nas mãos de Janine Mathias, a música ganha um arranjo entre a gafieira e um baile soul. Uma coisa meio Alcione cantando Carlos Dafé. Ou, em outras palavras, coisa bonita demais!
11 – Deekapz – “Onde Anda o Meu Amor” – com Criolo, DJ Marky, Makoto (6)
12 – Paira – “Ao Mar” (7)
13 – Jonas Sá – “DE SENTIR VOCÊ” (8)
14 – Supervão – “Tudo Certo para Dar Errado (Ao Vivo)” (9)
15 – Rogério Skylab – “Mão no Pau” (10)
16 – Mateus Fazeno Rock – “O Braseiro e as Estrelas” (11)
17 – Duda Beat – “Foi Mal” (com Boogarins) (13)
18 – Eliminadorzinho – “Cinza e Carmezim” (14)
19 – Lau e Eu – “O Sonho de Minele…” (15)
20 – Rashid – “Conversas Que Nunca Tivemos” (16)
21 – Cida Moreira e Rodrigo Vellozo – “Velocidade da Luz” (17)
22 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony) (19)
23 – Marabu – “Rubato” (20)
24 – Crizin da Z.O. – “Fatal” (com Edgar) (23)
25 – Ogoin e Linguini – “Sorte de Amor” (24)
26 – Rico Dalasam – “Dilema” (25)
27 – Don L – “Iminência Parda” (27)
28 – Lupe de Lupe – “Vermelho (Seus Olhos Brilhanto Violentamente Sob os Meus)” (28)
29 – Joyce Moreno – “Um Abraço no João” (com Jards Macalé) (29)
30 – Luedji Luna – “Bonita” (com Alaíde Costa e Kato Change) (30)
31 – Joaquim – “Emboscada” (31)
32 – Zé Ibarra – “Segredo” (32)
33 – Jadsa – “Samba pra Juçara” (33)
34 – Mateus Aleluia – “No Amor Não Mando” (34)
35 – Antropoceno – “Queda do Céu” (35)
36 – clara bicho – “Meu Quarto” (36)
37 – Stefanie – “Fugir Não Adianta” (com Mahmundi) (37)
38 – Maré Tardia – “Ian Curtis” (38)
39 – Vera Fischer Era Clubber – “Lololove U” (39)
40 – Josyara – “Eu Gosto Assim” (40)
41 – Rael – “Onda (Citação A Onda) (com Mano Brown e Dom Filó) (41)
42 – Cajupitanga e Arthus Fochi – “Flamengo” (42)
43 – Jovens Ateus – “Mágoas – Dirty Mix + Slowed Reverb” (43)
44 – Terraplana – “Todo Dia” (44)
45 – Apeles – “Mandrião (Vida e Obra)” (45)
46 – ÀIYÉ e Juan De Vitrola – “De Nuevo Saudade” (46)
47 – Dadá Joãozinho – “As Coisas” (com Jadidi) (47)
48 – Gabriel Ventura – “Fogos” (48)
49 – Nyron Higor – “São Só Palavras” (49)
50 – BK – “Só Quero Ver” (50)
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* Entre parênteses está a colocação da música na semana anterior. Ou aviso de nova entrada no Top 50.
** Na vinheta do Top 50, a banda gaúcha Bella e o Olmo da Bruxa.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.