O novo disco da Robyn. Ela voltou e ainda dança melhor que nós, mesmo com um filho pequeno no colo

Havia uma ansiedade muito específica pairando sobre os fãs da estrela sueca Robyn nos últimos anos. Depois do aclamado “Honey” (2018), um álbum de grooves contemplativos e quase etéreos, a pergunta que não queria calar era: ela voltaria às pistas de dança?

A resposta chegou na sexta-feira, na forma de “Sexistential”, e ela é um incontestável “Sim!”. 

“Sexistential” mira direto na boa e velha pista de dança, aquele território onde a Robyn já nos fez dançar e também chorar tantas vezes.  Mas vamos começar pelo nome: “Sexistential”. A nossa rainha do dance pop sueco, cantora, compositora, produtora e DJ, teria olhado para a própria crise existencial e pensado que faltava sexo no título? Talvez.

A fusão entre “sex” (sexo) e “existential” (existencial) já entrega o ponto de partida do disco: não se trata de um álbum sobre amor romântico. 

Aqui, ela fala de prazer, sensualidade e da relação com o próprio corpo em uma nova fase da vida, marcada pelo fim de um relacionamento longo e pela decisão de se tornar mãe solo por fertilização in vitro, tema que atravessa especialmente a faixa-título. 

Capa de “Sexistencial”

São assuntos que, em outros artistas ou mãos menos habilidosas, poderiam escorregar para uma confissão piegas calculada para ganho de likes. Robyn, como sempre, faz o contrário: transforma tudo em pop inteligente e viciante, daqueles que você não consegue tirar da cabeça.

Logo na abertura, “Really Real” joga o ouvinte em um estado de déjà-vu: começa com um groove que remete ao synth-pop robótico de “Body Talk” (2010), mas logo rompe a familiaridade ao escancarar uma letra com cenas íntimas e desconfortáveis de sexo mecânico e fuga mental, e surpreendentemente até uma ligação para a mãe no meio da música. 

“Dopamine”, o single do comeback dessa nova era, ganha outra dimensão dentro do álbum. Isolada, já indicava um amadurecimento e faz ainda mais sentido com o restante do repertório. Podemos dizer que tecnicamente não seja o primeiro contato que o público teve com seu novo trabalho, já que “Blow My Mind” reaparece aqui como um retrabalho da faixa lançada em 2002 no álbum “Don’t Stop the Music”. Se antes já carregava uma vibração funky oitentista, agora surge repaginada, com um vocal quase kraftwerkiano, um detalhe bem interessante.

“Talk to Me” entra como aquele momento meio safado, meio melancólico, que você coloca no repeat sem perceber e talvez seja um dos pontos altos do disco. Parte disso vem da produção do mestre dos grandes hits pop Max Martin nesta faixa, que reforça esse DNA de pop polido, daqueles que beiram a chamada “pop perfection”: produção impecável, melodias viciantes e composição afiada.

No meio do percurso, surge a ótima “Sucker for Love”, originalmente concebida para o EP “Do It Again” (2014), parceria com o duo norueguês Röyksopp. E, quando o disco dá sinais de acomodação, Robyn retoma o controle com “Light Up” e “Into the Sun”, que encerram os poucos mais de 30 minutos do álbum, duração que, segundo a própria artista em entrevista recente para a Capital Buzz, é mais do que suficiente para um bom disco.

Por fim, não é exagero dizer que boa parte do pop atual não soaria como soa sem Robyn. Talvez seja por isso que, mesmo desaparecendo por anos, nunca dá a sensação de que ela realmente foi embora. Sua influência continua pairando sobre uma nova geração de artistas que a têm como referência.

E, mais uma vez, Robyn não corre atrás de tendências, não recicla fórmulas nem tenta reviver sucessos passados. Ela soa plenamente à vontade no presente, confortável fazendo o que sempre fez de melhor: colocar emoção no pop.

Sexistential não reinventa a roda. Mas Robyn lembra, com elegância e sabedoria de uma mãe, que foi ela quem ensinou a roda a girar.

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* A foto de Robyn usada para este post é de Marili Andre.

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Postado por Lúcio Ribeiro   dia 30/03/2026
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