CENA – Popload entrevista Letrux, sexy, triste e tola. “Se não é um memezinho, uma piada, uma idiotice, você endurece”

“SadSexySillySongs” é o quarto álbum da carreira da carioca Letrux. Anunciado como um álbum minimalista, baseado em esquema voz e violão, o trabalho, lançado semana passada, se apresenta muito mais do que isso. É “cheio de brilho, cheio de gueri-gueri…”, conforme afirma Letrux. 

Porém, cumpre a promessa de ser dividido entre triste, sexy e bobo. “Acaba que eu usei a palavra ‘silly’ porque eu acho que a vida está tão difícil… Uma ode à tristeza, uma ode a ser sexy, mas também uma ode à bobeira. Porque se não é um memezinho, uma piada, uma idiotice, uma série idiota, um filme idiota, você também endurece”, ela explica.

Por isso, ao longo de 12 faixas, metade sendo em inglês e outra metade em português, Letrux revela até composições antigas, das quais tinha uma certa vergonhinha, mas que já passou. 

Outro “atrevimento” da cantora foi sair pedindo parcerias para os amigos – uns toparam (Jadsa, Mahmundi, Bruno Capinan), outros não (quem será, hein?).

Virou seu disco com mais parceiros na escrita e o mais comedido em termos sonoros. Quase todo o registro foi feito basicamente por ela e por Thiago Rebello, seu baixista; que por aqui se desdobra na produção e na guitarras, violões, sintetizadores e coros. 

Um formato muito parecido com o que veremos ao vivo. No Sesc Pinheiros, nos dias 4 e 5 de abril, Letrux vem intimista acompanhada apenas de Rebello e Cristine Ariel no violão, na estreia do novo show. 

“SadSexySillySongs”, este da capa acima, saiu pela Coala Records e já está disponível em todas as plataformas digitais. 

Em um bate-papo com a gente, (com carinho) ela destrinchou seu novo álbum. 

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Popload – Quando você lançou seu livro mais recente, a poeta Bruna Beber comentou que achou a obra muito engraçada e muito séria, ou seja, supervocê. Aconteceu de novo nesse disco?
Letrux – É, eu acho que eu sou assim. Eu sou engraçada e sou séria, eu sou sexy e sou silly, né? Uma vez uma bailarina profissional foi ver o show e ela falou: “Nossa, Letícia, você é muito bizarra, né? Porque quando você começa a fazer um movimento meio sexy cantando, você quebra o movimento e dá uma cambalhota e faz uma língua para a plateia. [Risos] Então, a gente fica assim ‘What the fuck?’ O que acabou de acontecer? Ela estava supersexy, eu estava aqui com tesão, mas de repente ela foi uma idiota”. No melhor sentido da palavra “idiota”. Acho que isso me resume muito. Essa frase da Bruna resume. Eu tenho um pouco de preguiça de quem é muito sério, só sério. De quem é só muito engraçado. Ou de quem é a personagem muito sexy, lânguida, queridona…  Eu fico, calma, dá um tempo, sacou? Eu sempre acho que o equilíbrio entre essas máscaras teatrais é o ideal da vida, né? Eu acho que a gente precisa chegar nessa harmonia idealizada e sonhada entre ser sexy, ser boba, ser triste, ser alegre.

Popload – Você pensou no conceito do álbum antes ou entendeu ele depois que o disco estava pronto?
Letrux – Então, o título veio primeiro. Apareceu nos meus caderninhos, em 2023, escrevendo maluquice, né? Eu escrevi Sad, Sexy, Silly, Small Songs. Ainda tinha um “small”, mas aí isso foi para longe, até porque as músicas não são “small”. Só no ano passado, quando eu falei: “Caramba, e aquele escrito do caderninho? Aquilo é uma coisa boa, aquilo é um norte”. E aí eu pensei, caramba, eu tenho aqui umas músicas que são bobas, bobas porque são do meu passado. Isso também é uma autocrítica que eu faço, porque tem duas músicas que são de quando eu tinha 22, 23 anos, mas que agora eu já estou assim: “Cara, eu tenho um público de 22, 23 anos. E eu falo ‘Nossa, eu passei por isso’”. E eu toquei essas músicas em um show que eu fiz sozinha voz e violão no ano passado e as pessoas falavam: “Cadê a gravação dessa música?”. Eu falei, ok, um sinal aí para eu gravar essas canções. Conforme tinha o título, mandei mensagens para colaboradores falando: “Vamos fazer uma música para o meu próximo disco? Eu quero que você faça uma música triste comigo, ou quero que você faça uma música sexy comigo”. E tive muitas respostas legais, algumas pessoas também não responderam, c’est la vie, mas muitas pessoas legais responderam e falaram: “Vamos lá, o que é sexy pra você?”. Aí eu mandava um “Olha isso aqui”. Aí mandei uma música do Alceu Valença, “Tesoura do Desejo”, mandei uma chamada “Don’t Stop”, de uma cantora chamada Qendresa. A gente ia trocando, trocando, até que uma hora “Opa, temos uma canção sexy, opa, temos uma canção triste”.

Popload – Acho que é a primeira vez que você tem um disco tão colaborativo…
Letrux – De composição, sim. Eu ficava muito nas mesmas pessoas, tanto “Aos Prantos”, “Mulher Girafa” ou “Climão”. Esse eu acho que tá mais amplo. Ano passado, eu fui muitas vezes para Floripa, porque eu gravei dois singles com o Nouvella, então eu acabei conhecendo músicos de lá. A música “Nessa Data Querida” é com um músico de lá, Theo Machado, a música “It’s Like Kurt Cobain Sings” é com um músico de lá, Tiago Borges, e tem uma música que é com o casal do Nouvella, Yasmin e o Gabriel, que é “By My Side, In My House”. Então tem três figuras de Floripa, tem a Jadsa, a Mahmundi, o Bruno Capinan, tem Tiago, que é meu parceiro, tem a Leïlah Accioly, que é maravilhosa, minha amiga do podcast “Tarados por Letras”. Ela fez um poema que eu declamo naquela música meio Laurie Anderson. Foi bem colaborativo, porque eu acho que essas atmosferas pedem colaborações. Venha ser sexy comigo, venha ser triste comigo, venha ser boba comigo.

Popload – E, se o processo de composição foi mais em conjunto, o disco é muito você e o Thiago Rebello. O Thiago tocando em algumas faixas tudo e você na voz.
Letrux – O processo da gravação foi mais eu e Rebello mesmo. Eu não queria um disco de feat., queria mais brincar com as pessoas de composição. Às vezes a gente chama só pro feat. e aquilo não tem uma história por trás. A pessoa vai, grava seu disco, mas cadê? Acho que a composição é mais profunda, tipo: “Olha a gente compôs juntos, a gente fez uma parada aqui”. Eu queria brincar.

Popload – Me entristece muito é quando eu descubro que o feat. é assim “Ah, eu conheci a música no dia…” ou foi feita sem as pessoas terem alguma relação.
Letrux – É tristíssimo isso, né? Eu acho que a composição é um jogo, para mim tesudo, e o disco fala um pouco sobre isso. Então, eu acho que queria brincar de compor, só que queria com isso brincar de gravar e de criar arranjos e sonoridades com o Rebelo. Eu já fiz muita coisa com todo mundo da minha banda. Arthur Braganti e Natália Carrera produziram os dois primeiros discos. Eu já tive um trabalho que o batera, o Lourenço Vasconcellos, tocava vibrafone pra mim, lindo. A Jessica Zarpey, percussionista, quando entrou, ela virou uma peça-chave para a gente. Nós colocamos ela também na versão redux do show, fomos para Europa. E o Rebelo era a figura que eu ainda não tinha feito um projeto paralelo, uma coisa com ele. E ele é foda, ele é chique. Eu mandava umas músicas para ele só cantando: “Amigo, tem aqui: ‘Life is too hard, life is too sad…'”. E aí ele me devolvia com um violão jazzy, uma guitarra jazz e eu falava: “What the fuck?” Eu fiquei chocada! Eu sabia que ele era bom, mas acho que esse disco me mostrou que ele é excelente, exuberante, magnânimo. É um músico inacreditável, então, foi muito gostoso brincar com ele.

Popload – A divulgação inicial do disco prometia algo minimalista. Tem uma frase sua sobre sonhar com um disco voz e violão. Me lembrou do meme do “Sonho versus realidade”. Porque o disco é outra parada…
Letrux – Outra parada total. Porque o sonho é isso, você tem uma ideia, mas no percurso, no caminho, coisas acontecem, imprevistos acontecem e novos desejos surgem. E é importante obedecer os desejos. Esse disco sou eu obedecendo o meu desejo: “Gente, quero fazer um troço diferente. Banda, amo vocês, daqui a pouco a gente volta, mas agora eu tô com esse desejo, sabe?”. Quando você nega o desejo, vira um ressentimento horrível. Então, sou eu obedecendo o meu desejo e foi isso. Eu e Rebello lá, e de repente a gente percebeu que as músicas mais sexies precisavam de um brilhinho, de um gueri-gueri. “Amiga, vamos meter aqui um beatzinho?” Mas eu acho que o violão tem um protagonismo, ele está presente na maioria das faixas e tal, mas é isso, não é um disco de violão, mas tem uma ode ao violão, à composição com o violão, mas cheio de brilho, cheio de gueri-gueri.

Popload – Esse gueri-gueri é um pouco de climão…
Letrux – Tem um tiquinho de tudo porque é um pouco isso. Os três discos que eu fiz na vida são um pouco esse título. O “Climão” era sexy, o “Aos Prantos” foi triste e a “Mulher Girafa” foi bobo. Eu estava falando de bicho, que louca. Então, eu acho que que vai ter um pouquinho de todos os outros discos nesse disco. Ele acaba sendo um pouco, de alguma forma, um resumo dos outros três trabalhos. Não sei como, mas de alguma forma, pensando em composição, não estou pensando tanto em sonoridade. Estou pensando mais em composição. Talvez ele seja um resumo dessas atmosferas.

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* As fotos de Letrux usadas para este post são de Bruna Latini.

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Postado por Vinicius Felix   dia 30/03/2026
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