Em meio à caça a uma nova diva da música, Sienna Spiro se candidata com o álbum de estreia, “Visitor”, lançado hoje no “dia da Madonna”

O pop às vezes tem um péssimo hábito de dificultar o caminho de mulheres que começam do zero. Nos primeiros vestígios de uma nova cantora inglesa de 20 e poucos anos, de voz rouca e um piano ao fundo, capaz de fazer uma balada soar como se cada verso fosse uma última tentativa de convencer alguém a ficar, imediatamente temos uma “a nova Adele”.

Se ela beber um pouco da fonte do soul, fazer um som que combine com taças de vinho e um romantismo melancólico, inevitavelmente alguém ressuscita Amy Winehouse. Nos últimos anos, esse “hall” vem ganhando novas integrantes de peso, como Jorja Smith, RAYE, Olivia Dean, Gracie Abrams. E agora parece ter encontrado mais um nome disposto a trilhar seu próprio caminho: Sienna Spiro.

Ao lançar nesta sexta-feira o álbum “Visitor”, seu disco de estréia, tanto para o julgamento do mundo como felizmente para que muitos se apaixonem e façam das faixas trilhas sonoras de suas vidas, é curioso notar que nenhuma dessas comparações está exatamente errada. Afinal, um estilo naturalmente ancorado no soul, no jazz e no R&B, realmente parece conversar com essa tradição britânica. É uma forma conveniente de apresentar um artista ao público, mas também por um lado uma das maneiras mais eficientes de atrasar o nascimento de uma identidade própria.

“Visitor” parece entender isso desde a primeira faixa. Com vários singles lançados ao longo dos últimos meses antecipando seu debut, em vez de correr desesperadamente para provar que é diferente de todas as artistas que vieram antes, Sienna aceita suas referências e começa, aos poucos, a dobrá-las na direção da própria personalidade.

A primeira impressão continua sendo a voz. Ela realmente impressiona. Grave quando precisa ser íntima, mais monumental quando decide crescer, ela domina praticamente todos os ambientes que o disco constrói ao seu redor. É interessante como Spiro nunca parece interessada na perfeição técnica, sem esconder respirações e pequenas desafinações. Em uma época em que a inteligência artificial já consegue fazer suas correções digitais e reproduzir praticamente qualquer timbre, ouvir alguém parecer uma pessoa de verdade acaba sendo um diferencial inesperado.

Como próximos passos, sua turnê “My House Tour” atravessa Europa e América do Norte com datas praticamente esgotadas. E a presença de “Material Lover” na trilha de “The Devil Wears Prada 2”, um dos blockbusters do ano, ajuda a colocá-la naquele seleto grupo de cantoras que descobrem cedo que nenhuma estratégia de marketing supera o poder de uma boa comédia romântica. Quem sabe vem um Tiny Desk por aí? Uma indicação ao Grammy de Best New Artist? O tempo dirá.

No fim das contas, “Visitor” é pra se escutar sem pretensões. É disco cheio de baladas para deixar tocando de fundo num date-jantar em casa, para uma mãe colocar no carro enquanto busca seus filhos na escola, para se deparar com suas faixas mais radiofônicas numa loja de departamentos, ou numa publicidade de perfume.

Ao comitê de julgamento musical da internet e aos caçadores de uma “nova alguém” da música, por favor relaxem. Tá tudo bem ele soar como um álbum de estréia em alguns momentos. Como um primeiro capítulo de tudo. Todo mundo começa de algum lugar e sempre teremos espaços para mais uma diva.

capa de “Visitor”, de Sienna Spiro

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Postado por Vinicius Dota   dia 03/07/2026
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