
Se não há como escapar dos ciclos da vida, que então vivê-los intensamente: nesse sentido vão os gaúchos da Fresno, entre a permanência em “Eu Nunca Fui Embora” (2024) e a ruptura agora, com o novo disco “Carta de Adeus”. Disponível nos streamings a partir de hoje, sexta, a banda optou por um formato diferente de lançamento: primeiro para os fãs, em show real em São Paulo no último dia 18, uma audição que na verdade era a banda tocando ao vivo o disco, e só depois para o mundo, hoje, agora virtualmente.
E esse “adeus”, do que se trata afinal?

Para os tantos fãs, fica o alívio: a banda, após três décadas de história, continua mais viva do que nunca. O que muda é uma busca (e já adiantando, conquista) por uma sonoridade mais orgânica. O trio formado por Lucas Silveira, Guerra e Vavo apresenta a sua galera um álbum gravado de forma analógica, com equipamentos dos anos 80, sem excessos nos arranjos e que permite que os instrumentos “soem como são”.
E da mesma forma que os arranjos transparecem uma Fresno mais crua, as letras das músicas de “Carta de Adeus” mergulham em sentimentos profundos como luto, amadurecimento, culpa, saudade e transformação, revisitando memórias íntimas que acabam ganhando uma dimensão coletiva.
“São um monte de cartas, na verdade, que vão dando adeus para histórias, pessoas e versões da gente que a gente foi deixando pela vida”, explica Lucas Silveira à Popload. “Tem coisas que, quando você está vivendo, não consegue enxergar com clareza: só o tempo traz isso.”
Ao contrário do que o título pode sugerir, o álbum não trata de um encerramento, mas de um processo contínuo de elaboração. As músicas não nasceram de um conceito pré-definido, mas foram se encontrando ao longo do caminho. “A gente nunca foi muito de pensar ‘vai ser um disco sobre isso’. Faz uma música porque ela é bonita, depois outra, e aí começa a perceber que elas têm uma temperatura em comum. O conceito aparece depois”, conta Lucas.
Sonoridade mais “crua”
Essa construção orgânica também se reflete, claro, nos arranjos. A decisão de buscar timbres mais “puros” levou a banda a revisitar equipamentos antigos e processos fora do ambiente digital. Segundo os músicos, a busca por equipamentos e formas mais analógicas de gravação foi um processo natural, que acabou culminando em uma certa “estética anos 80”.

Mas longe de um “revival” batido, a referência passa por um recorte bastante brasileiro. Segundo Lucas, a sonoridade “é mais perto de botar do lado de Legião Urbana ou Guilherme Arantes do que daquela estética americana clássica dos anos 80”.
E o tempo, claro, aparece como elemento central no disco: tanto na construção quanto na mensagem. Feito com calma, entre pausas na estrada, “Carta de Adeus” foi maturado ao longo de meses e é justamente dessa vivência que surge o fio condutor do álbum: a ideia de que, por mais complicada que seja a situação que o eu lírico vivencia, há movimento possível. “Não importa o tamanho do lugar em que você se enfiou ou te enfiaram. O tempo continua passando, e ele pode te tirar disso”, reflete Lucas.
Em um disco que toca em temas pesados, incluindo histórias de quem não conseguiu suportar os pesos da vida, a mensagem final é praticamente um gesto de cuidado com o público: “a gente precisa lidar com o peso da existência, mas também aprender a dividi-lo. Conversar, se abrir, procurar ajuda. Vai passar”.
Se há algo que a Fresno aprendeu em quase 30 anos de estrada é que continuar em movimento talvez seja a única forma de permanecer. E, paradoxalmente, dizer adeus pode ser só mais uma maneira de seguir em frente.