Top 50 da CENA – Marina Lima, Cidadão Instigado e Buhr fazem o ranking morar na filosofia nesta semana. Schlop e MINTTT aliviam a barra

Eita, Brasil! A semana colocou a gente para fritar a cabecinha em sons e pensamentos sobre sons. Do estridente clube desconstruído da produtora MINTTT até as canções reflexivas de Marina sobre o luto após a morte de seu irmão e parceiro Antônio Cícero. Sem deixar de falar na volta do Cidadão Instigado e suas várias facetas até a ânsia polissêmica de BUHR. Hora de filosofar! 

A vida artística de Marina Lima começou ao lado do irmão Antônio Cícero. Ela tinha 15 anos quando musicou um poema dele. Seu texto inventou a compositora, a música dela transformou o poeta em letrista. Com diferentes graus de intensidade, a parceria rendeu músicas para todos os discos de Marina; a exceção é “Clímax” de 2011. “Ópera Grunkie” é o primeiro disco de Marina sem Cícero por perto. O poeta optou pela morte assistida em 2024 após entender que a vida estava insuportável por conta do Alzheimer. “Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo”, escreveu em sua carta de despedida. Por isso, o primeiro ato de “Grunkie” é dedicado a ele. Aqui Marina reúne em três faixas seu processo de luto: da negação até a aceitação. “Não, Cícero” sussurra em “Grief-Stricken”, enquanto em “Perda” lembra os versos dele: “Vida, valeu. Não te repetirei jamais”. “Meu Poeta” encerra a tríade sendo sua carta de amor ao irmão. “Eu compreendi você e vou te amar eternamente”. Com a emoção em suspense, Marina se joga no segundo ato trazendo Ana Frango Elétrico para juntas formarem uma só voz nesta “Um Dia na Vida”. É o sol depois de tanta chuva. Uau. Por si só, essa já é uma construção forte o bastante para que esse não seja mesmo seu pior disco, como apontou a crítica da “Folha de S.Paulo”, que viralizou. Esse é o tipo de movimento que demanda 70 anos de história. Um compositor não pode fazer isso antes ou depois. Se o disco não entrega canções em formato pop ou ou não reze pela técnica perfeita aqui ou ali, não parecia ser a intenção dela entregar esse tipo de recorte. “Fullgás” já cumpriu isso em 1984. “Ópera Grunkie” parece ressoar outra Marina, uma Marina descrita por Cícero nas páginas da mesma “Folha de S.Paulo” em 2011: “A música de Marina é, por um lado, um gesto intensamente pessoal, e por isso precário e arriscado. Mas é, por outro lado, um voo perfeccionista e impaciente com todas as vicissitudes demasiadamente humanas”. Vicissitudes demasiadamente humanas. Tá aí algo de que todo mundo tenta fugir o tempo todo. Marina encarou a si mesma. 

“Nada será como antes/ Tudo vai ser diferente/ Como antes”, canta Catatau logo na segunda faixa de “Cidadão Instigado”, o primeiro álbum em dez anos de seu projeto Cidadão Instigado. Tudo vai ser diferente como antes. Igual quando Catatau sozinho começou a juntar em São Paulo os pedaços de ideias que formariam o projeto em Fortaleza há 30 anos, ele se viu sozinho em São Paulo na pandemia acompanhado apenas de um sampler Roland MV-8800. A partir do medo da doença lá fora, com a mente fervilhando em beats dançantes e dando uma panorâmica na situação da música brasileira hoje, as composições criaram força para reunir amigos antigos e novos. Ao passo que encontramos velhos conhecidos do Cidadão, como Clayton Martin, Dustan Gallas, Rian Batista e Regis Damasceno, passam por aqui também Jadsa, Ava Rocha, Juçara Marçal, Anna Vis, YMA, Mateus Fazeno Rock, Edson Van Gogh e Kiko Dinucci… Mas tudo é Cidadão Instigado. 30 anos depois nada será como antes
Tudo vai ser diferente. Como antes.

Ânsia é daquelas palavras que os dicionários precisam de umas cinco definições para darem conta de todos os sentidos. Os versos de “Ânsia”, de Buhr, vão pelo mesmo caminho. Soltos podem descrever uma pessoa rolando pelo asfalto em desespero, uma pessoa rolando pelo feed em desespero. Mil coisas ao mesmo tempo e perigando ser nada agora. “O pensamento esturricado/ mofando tanto/ de tanto vazio por dentro”. Também pode ser sobre alguém interessado em dizer o que quer e como quer. Fazer sua arte livre. Essa é a ânsia de Buhr também. “Meu dom é real/ na verdade eu insisto/ antes do final/ não te esperei/ nem tudo te espera/ é sobre mim/ agora é sobre mim”. “Ânsia” é o primeiro single de “Feixe de Fogo”, previsto para o dia 10 de abril. 

Amamos quando a banda se apresenta de maneira sincera. A descrição do Schlop já na bio do Instagram é “lo-fi foda-se”. Precisa dizer mais? Você dá o play no álbum de estreia deles, “Cachorros e Madames no Fim do Mundo” e encontra um lo-fi foda-se mesmo. Aliás, mentira! Dá até para dizer que eles capricham no desleixo, igual quem despenteia o cabelo de propósito um pouquinho. Não é menos autêntico, veja bem. É estilo. E foda-se. Fora o bom humor explícito em faixas que levam nomes do tipo “Marquinho Van Halen” ou “O Rei do Velotrol”. What? Outro momento que transmite o jeitinho particular de ser do grupo é uma versão para um clássico do LCD Soundsystem. “New York I Love You But You’re Bringing Me Down” virou “São Paulo, Te Amo, Mas Tá Foda Demais”. Gênios.

Acha que as suas músicas estão soando baixas nas plataformas digitais? Pergunta então para a MINTTT, cria da Zona Norte do Rio, como ela consegue fazer foninho de ouvido explodir sem perder em textura e profundidade. É de cair o queixo a pancada produzida por ela em sua “Mixtape da Prensa Hidraúlica”, sua estreia solo como produtora após deixar sua banda, a Astrophysics. Juntando industrial, noise e funk, não cabe ficar tentando classificar muito o que ela faz. Em sua própria descrição, MINTTT coloca um ponto de vista brasileiro no tal “deconstructed club”, um equivalente do pós-rock para a música eletrônica. E pô, lá no meio do baile, ela lança um citação do game Disco Elysium, sabe? O jogo mais marxista já feito. “Então você sabe… Que os burgueses não são humanos”. Vai lá dar um play lá e ver o que os jovens andam pensando sobre o mundo.

Ottopapi um dia postou no Instagram uma foto sua segurando um troféu do VMB, a mítica premiação da velha e extinta MTV. Realmente, ele seria um sucesso por lá. Mas chegou no “lugar certo na hora errada”, para ficar em uma frase do Jack White. É difícil não pensar nisso ao play em “Bala de Banana”, seu álbum de estreia, e dar de cara com seu açucaradíssimo rock superdeslocado do nosso tempo ao soar superindie rock anos 2000, sem medo de ser escrachado ou engraçadinho. Ele se joga com a coragem e o conhecimento de quem já andou muito pela cena em várias frentes: DJ, produtor, curador, agitador, empreendedor indie, designer. Sua fórmula passa por Strokes sabendo da origem do caldo, Nova York 1970 e os efeitos do estrago em terras brasileiras – oi, Cansei De Ser Sexy e companhia ilimitada. Lembra a forma que Cazuza e Frejat releram os Rolling Stones situando os riffs blueseiros nos timbres e no papo carioca da época. É assim. As novas gerações vão redescobrindo tudo mais uma vez. Fica velho quem chiar primeiro. Vale falar em Cazuza porque eles se parecem até no modo de escrever. Conversa solta e franca. “Porque na minha vida já deu pra fazer tanta merda…” é logo o primeiro refrão do disco. E Ottopapi nem faz questão de esconder. “Toddy ao Tédio” é uma citação ao verso “Prefiro Toddy ao tédio”, da poeta Ledusha Spinardi, adotado por Cazuza em camisetas. Sai o baixo Leblon, entra a Barra Funda. Se prepare para quando ele furar a bolha e pintarem comparações exageradas no X; Marina Sena lidou com as comparações exageradas com Gal. Só não vale virar hater. Também não estranhe ao notar que todo mundo que você ouve já é amigo dele de outros carnavais. O homem tava aí o tempo, só você não viu.  

Quando o novo álbum de Ítallo França chegar em maio vamos entender melhor como o single “Tire uma Hora pra Lembrar de Mim” conectará o novo trabalho com o anterior, “Tarde no Walkiria”. Ítallo descreve ele como uma canção romântica que estava faltando no disco. Uma canção de amor direta e reta e dolorida, lógico. “Tire uma hora pra lembrar de mim/ tire um tempo/ pra pensar em nós/ distante assim, a vida não melhora”, são alguns dos versos no delicado arranjo minimalista – voz, violão, baixo e um teclado elétrico só para dar aquele gostinho mais agridoce.

Matutando há seis anos seu álbum de estreia, a artista paulista Tiny Bear convence de que tanto trabalho valeu a pena com  “UMi: Memórias de um Corpo Etéreo Que Ainda Jaz em Mim”. Equilibrando universos distantes ao unir sua técnica de professora de canto com timbres de bedroom pop ainda não certificados pela erudição academia, Tiny Bear alcança um resultado original ao investigar sem medo. Só ver como ela deixa tudo redondinho em ritmos todos quebrados nesta “Mathpop”. Nerdice é pop. 

Alice Caymmi prepara para abril um disco chamado “Caymmi”. O álbum será dedicado ao repertório de seu avô Dorival. Com produção de Iuri Rio Branco, a ideia é trazer essas canções fundamentais da história da música brasileira para uma sonoridade de agora. Mas tem mais aí: a escolha das músicas também contará a relação de Alice com sua herança. “Modinha para Gabriela” foi escolhida como primeiro single por significar liberdade. Os versos “Quem me batizou, quem me nomeou/ Pouco me importou, é assim que eu sou” ganham novo sentido. Alice sabe sua origem, sabe da importância e tudo mais, mas ela é ela. Em seu nome, antes de Caymmi tem Alice.

“Desolação de Los Angeles,
a Baixa Califórnia e uns desertos ilhados
por um pacífico turvo…”


“Minhas Lágrimas” está na lista de músicas esquisitas de Caetano Veloso. Poucos versos, versos livres. Sem rima, sem solução. É um texto que parece lutar para se encaixar em alguma harmonia possível. Talvez seja a única música de Caetano da qual se tenha registro da ideia brotando em sua mente. No documentário “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein, ele fala sobre uma tristeza esquisita sentida durante uma viagem a Los Angeles, sentimento que só se resolveria em uma canção. Na época, Caetano estava separado de Paula Lavigne e começava a escrever as músicas que apareceriam no projeto “Cê”. “Minhas Lágrimas” é esquisita, mas tem texto cristalino. Em um aviãozinho de carpete horrível, sozinho, solteiro aos 60 anos, vendo a imensa Los Angeles; espelho da feiura do mundo – algo bateu mal em Caetano. “Nada serve de chão/ onde caiam minhas lágrimas”. E é este texto tão pessoal que o ator Gabriel Leone resolveu interpretar em seu recém-lançado álbum de estreia, onde a canção se torna também título do disco. Em suas idas a Hollywood, talvez ele também já tenha ficado sem chão para suas lágrimas naquele mesmo avião; embora qualquer um possa chorar com ele e Caetano. Em um disco onde Leone resolve reinterpretar compositores mais velhos (Djavan, Paulo Vanzolini, Guinga, Paulo César Pinheiro, entre outros), não deixa de ser curioso ele optar por uma versão meio indie do Caetano meio indie.     

11 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (2)
12 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (2)
13 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (2)
14 – Thalin – “Vagando” com Nina Maia (2)
15 – Giovani Cidreira – “Denga” (3)
16 – Dany Roland e Pedro Sá – “Tudo Nada” (3)
17 – Pedro Lanches – “Vergonha” (3)
18 – Febem, Fleezus, CESRV – “Terceiro Mundo – Baile do Brime” (3)
19 – Dead Fish – “Bem-Vindo ao Clube (Ao Vivo)” (3)
20 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (4)
21 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (4)
22 – Mombojó – “É o Poder da Dança” (4)
23 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (5)
24 – Julieta Social – “Cê La Vie” (5)
25 – Marcelo Callado – “Casca” (5)
26 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (6)
27 – Liniker – “Charme” (7)
28 – Pedro Lanches – “Adesivos (com YMA)” (7)
29 – Marina Lima – “Olívia” (7)
30 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (8)
31 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (8)
32 – Larissa Luz – “Marchona” (8)
33 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (8)
34 – Teto e WIU – “À Beira (com Don L e Lamar)” (8)
35 – Rancore – “Eu Quero Viver” (8)
36 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (9)  
37 – Lan – “Tão Bom Lembrar (com JOCA)” (9)
38 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (9)
39 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (9)
40 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (9)
41 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (10)
42 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (10)
43 – Letuce – “Baliza” (10)
44 – Janine- “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (12)
45 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (12)
46 – Tuxe – “Nada a Pulso”  (12)
47 – Parteum – “10, Talvez 9”  (12)
48 – Don L – “Iminência Parda”  (12)
49 – Emicida – “Quanto Vale o Show Memo?”  (12)
50 – Lia de Itamaracá e Daúde – “Bordado”  (12)

***
* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, .a cantora Marina Lima, sob foto de Andre Hawk.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.

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