
Agora sim! 2026 começou para valer entre os lançamentos brasileiros. Mais no território dos singles e de relançamentos especiais. Mas tá ótimo, já deu uma animada. Em especial as coisas quentes: Marcelo Cabral cantando e tocando guitarra, Maria Bethânia mandando Trump ficar pianinho e Thalin celebrando o artilheiro do Liverpool. Um pouquinho de tudo.

Baixista de primeira linha da música brasileira, Cabral aparece tocando guitarra e em voz neste single do seu próximo álbum solo. E que voz! E que guitarra! Na real, a guitarra era seu instrumento de origem e é de chapar sua abordagem para lá de original com as seis cordas. Com letra do parceiro Clima e gravação em fita, “O Herói Vai Cair” é Cabral olhando para o pós-punk dos seus tempos de skate. Um tiquinho de melancolia ao ver o herói caído ao lados de imortais também caídos. Ninguém escapa, não é mesmo? Ao seu lado, a voz cristalina e bela de Sophia Chablau e a bateria de Biel Basile reeditam parte do time responsável por “Handycam”, de Chablau e Felipe Vaqueiro. Olha, é o tipo de música que no nosso programa de rádio tocaria duas vezes seguidas, pique John Peel e “Teenage Kicks”.
Maria Bethânia sempre sabe a hora e a vez de mandar o papo certo. Presente em sua turnê de 60 anos de carreira, este samba de Xande de Pilares e Paulo César Feital faz uma releitura da potência histórica do Brasil. Um Brasil por vezes apagado nos livros – forte, sincrético e exemplar único. Sendo o país o eu-lírico da canção, o recado na voz de Bethânia é direito: “O meu próprio povo me conduz/ Tem que respeitar/ Chefe de outra pátria não induz quem vai me guiar”.
Em uma junção de tamborzão e System of a Down, o talentosíssimo Thalin, que você conhece da turma do projeto Maria Esmeralda, fez essa ode ao craque egípcio goleador do Liverpool, Mohamed Salah. Boa para meter uma coreô após um dos golaços de sempre dele. Fica com o troféu de solinho de guitarra do ano até aqui, hein?
“Baliza” é uma favorita dos fãs da banda formada por Letrux e Lucas Vasconcellos. Ela era a inédita no EP “Couves”, um disquinho que você achava no 4shared ali por 2010 com versões para músicas do Raça Negra, Só Pra Contrariar, Sade e Des’Ree. Escapando de qualquer treta com direitos autorais, o material circula até hoje no YouTube, mas faltava “Baliza” nos streamings oficialmente. Cerca de 15 anos depois, com direito aos vocais regravados por Letrux ano passado, a faixa pinta para ser redescoberta.
Ironizando o disco de covers do Guns N’ Roses, o Ratos de Porão lançou em 1995 seu “Feijoada Acidente?”. Duplo, um dos álbuns homenageando músicas brasileiras e outro cuidava das versões de gringos. Sumidos do streaming, a versão “Brasil” reapareceu finalmente como parte de um esforço de organizar a discografia digital do grupo. Agora podemos ouvir repetidas vezes a impagável “Nós Somos a Turma”, um hit de colegial que João Gordo e Jão assinam, mas confessam ser uma musiquinha que circulava entre os punks das antigas.
É redondinho o disco de bossa nova da Luiza Sonza. Sim, o projeto foi visto à primeira vista com desconfiança, especialmente pelo tom um pouco artificial dos elogios públicos de seus parceiros nesta jornada, Toquinho e Roberto Menescal, mas ele para em pé. Os arranjos são bonitos, básicos e deixam as canções falarem por si só. Seria melhor e mais ousado com foco em resgatar músicas menos óbvias, algo que acontece em “Nós e o Mar”, ou retorcer a proposta ao alcançar os afro-sambas, a fase posterior de Vinicius de Moraes, presente aqui com “Consolação”.
Melhor do que uma música boa para começar o nosso 2026, que tal cinco músicas em uma só? É a experimentação proposta por Janine em “Dorotá”, faixa de EP do mesmo nome dividida em cinco partes, sendo uma delas a parte de número zero. Com duração variando entre pouco mais de 30 segundos e até quase dois minutos, o som soma 5 minutos e cria a “atmosfera de uma cantiga que embala para um sonho febril”, para usar palavras escolhidas pela própria artista. Janine é “multiartista carioca que junta com pesos iguais os talentos de cantora, guitarrista, atriz e artista visual”, definiu Clara Campos no perfilzinho que fez dela aqui na Popload em 2025. E Janine honra tal descrição ao propôr em “Dorotá” um universo expandido – um poema escrito por Bia Coslovsky oferece outro olhar para a canção, por exemplo. É música além da música, e você é convidado por ela a participar da experiência, como quem não dá respostas, mas oferece novas perguntas. Arte, né?
Te falar, talvez “Saí para Ver o Mar” seja a melhor música escrita por Marina Sena até aqui. A letra é sexy e apaixonada. Tem um tempero de quem ouviu muito axé, bossa nova e muito rap. Na cadência, na escolha de palavras. Talvez pela despretensão de ser para um EP de Carnaval, o “Marinada Vol 01”, a canção soa mais bem resolvida que outros momentos introspectivos de Marina, como em “Anjo” ou “Ouro de Tolo”. É canção daquelas resistentes a uma versão voz e violão ou que poderia ser a escolha moderninha da vez de Bethânia e do Caetano em uma futura turnê em dupla. Em um dos versos, Marina canta que o amor dela é um verão “quando eu tô no litoral sul da Bahia”, “um copo de cerveja no bairro” ou o “sono de sábado”, mas nem precisava, o clima da música já te coloca nesses ambientes sagrados. Hit total!
Também pensando no Carnaval e na Bahia, o DJ e produtor Tuxe relembra em “Nada a Pulso” os graves do pagodão baiano escutados nas festas da família em Salvador. É como se o artista baiano (já residente em São Paulo) encontrasse fotos antigas no baú e sem medo recortasse momentos para uma colagem deixando tudo mais abstrato e ainda mais pessoal. Esse olhar para o passado, incluindo uma fase roqueira, permeiam sua estreia com o EP “Cem por Cento”, lançado no finazinho de novembro.
É tradição. O primeiro lançamento brasileiro do ano sempre é uma inédita do Parteum. Há dez anos, ele mantém o hábito de passar os últimos dias do ano em criação. Em 2026, o resultado já é “10, Talvez 9”, que de acordo com o rapper teve seu nome trocado de última hora por intervenção dos dez, talvez nove, amigos. Qual será o título censurado? O que sabemos é que este som é o terceiro single de “Raciocínio Inteiro”, álbum lançado de forma serializada por Parteum desde o ano passado. Quem é fã saberá ter paciência.
11 – Don L – “Iminência Parda” (2)
12 – Emicida – “Quanto Vale o Show Memo?” (2)
13 – Lia de Itamaracá e Daúde – “Bordado” (2)
14 – Tori – “Ilha Úmida” (2)
15 – Mateus Aleluia – “No Amor Não Mando” (2)
16 – Jadsa – “Big Bang” (2)
17 – Cajupitanga e Arthus Fochi – “Flamengo” (2)
18 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony) (2)
19 – Chico César – “Breu” (2)
20 – Clara Bicho – “Meu Quarto” (2)
21 – Nigéria Futebol Clube – “Preto Mídia” (2)
22 – BK – “Só Quero Ver” (2)
23 – Vera Fischer Era Clubber – “Lololove U” (2)
24 – Zé Ibarra – “Segredo” (2)
25 – Lupe de Lupe – “Vermelho (Seus Olhos Brilhanto Violentamente Sob os Meus)” (2)
26 – Marabu – “Rubato” (2)
27 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony) (2)
28 – Mateus Fazeno Rock – “O Braseiro e as Estrelas” (2)
29 – Valentim Frateschi – “Mau Contato” (2)
30 – Eliminadorzinho – “Você Me Deixa Coisado” (2)
31 – Douglas Germano – “Tudo É Samba” (2)
32 – Oruã – “Casual” (2)
33 – PUSHER174 – “Eu Sou do Contra” (2)
34 – Sophia Chablau & Felipe Vaqueiro – “Cinema Total” (2)
35 – Teago Oliveira – “Desencontros, Despedidas” (2)
36 – Dadá Joãozinho – “As Coisas” (2)
37 – ÀIYÉ e Juan De Vitrola – “De Nuevo Saudade” (2)
38 – Gabriel Ventura – “Fogos” (2)
39 – Nyron Higor – “São Só Palavras” (2)
40 – Ottopapi – “Ruim da Cuca” (2)
41 – Pelados – “Modric” (2)
42 – YMA – “Rita” (2)
43 – Janine Mathias – “Deixa pra Lá” (2)
44 – João Parahyba – “Forró World” (2)
45 – Rachel Reis – “Coisa Rara” (2)
46 – Antropoceno – “O Ar nos Meus Pulmões” (2)
47 – Desastros – “Desastres” (2)
48 – Djavan – “Pra Sempre” (2)
49 – Stefanie – “Fugir Não Adianta” (com Mahmundi) (2)
50 – Flau Flau – “Bye Bye” (2)
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* Entre parênteses, agora, tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o músico Marcelo Cabral.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.