CENA – O retorno que você não sabia que queria tanto. O novo disco do Ludovic, 20 anos depois
POSTADO DIA 07/08/2026


Dançar com Lulina. Emocionar com Julia Guedes. Berrar com Black Pantera. Escolha seu verbo favorito ou escolha todos, sempre é uma possibilidade. Separamos os principais lançamentos da semana na CENA brasileira, que ainda conta com o bate cabeça bem humorado do Major RD e os quase ingleses do Wry em bom português.

Lulina e sua capacidade de sintetizar em versos sensações nossas ainda não verbalizadas. “Tava à toda fazendo tudo/ Quando me ocorreu/ Que a vida toda tinha passado/ Que o tempo morreu”. Caramba. Esse deslocamento, o tempo perdido que bate, a ficha que cai quando notamos a urgência de viver imediatamente e reencontrar a gente. Nossos cacarecos pelo chão. Além da boa dose de luz nos versos, “Cobra com Asas” ainda apresenta Lulina se arriscando em um amapiano conduzido pela produção de Guilherme Kastrup. Mais um som para a infinita playlist “Penso, Logo Danço”. A faixa é o segundo single de “Sinuosa”, próximo álbum da artista pernambucana. O primeiro foi “Outras Vezes”, com participação de Ana Frango Elétrico.
O play em “Álbum Vermelho”, estreia da artista mineira Julia Guedes, soa fora de seu tempo não porque sua música seja anacrônica, longe disso, muito longe, mas talvez por um detalhe que passe batido sem a informação: o material foi registrado muitas vezes de primeira, sem retoques digitais de edição. É isso que está fora do lugar aqui. Julia abre mão do volume e perfeição por puro feeling. Essa energia orgânica que vai arrastar os ouvintes do começo ao fim de forma encantada – foram apenas dez dias de gravações, imagine! Sua associação familiar com o Clube da Esquina aparece no bom gosto para os timbres e contornos líricos, basta ver a tapeçaria cuidadosamente montada que é esta “Notas de Avião”, de uma delicadeza rara.
Ainda na preparação para o novo álbum, “Continental”, o Black Pantera recupera em “Hórus” o verso de Tupac: “Todos os olhos em mim”. De maneira cruzada, a letra vai abordar quanto o racismo condiciona a viver em estado de alerta (Em todo recinto que eu entro/ O segurança, mesmo negro, me vigia/ Todos os passos, todos os atos/ O peso dos meus erros é multiplicado), efeitos que alcançam até a fé com o sincretismo, uma forma encontrada para proteger a religiosidade de matriz africana do ataque colonial. Bem interessante isso.
Uma radiografia da cabeça de Mário Bross, vocalista e guitarrista do Wry, ilustra a capa do single “Sob os Olhos da Multidão”. Mais íntimo que isso é difícil, mas a música também tem uma honestidade cortante. “É uma aceitação brutal de ser leal consigo mesmo, mesmo que isso traga algum tipo de ruptura”, escreve Mário. A maturidade caiu bem demais para o Wry, que depois de uma longa jornada cantando em inglês, e por muito tempo vivendo lá fora também, entrega em breve seu segundo disco todo em português. Já era legal e só melhorou, especialmente por eles não abaixarem o som da guitarra para cantar na língua de sua terra natal.
“ALFA”, novo álbum do Major RD, é seu trabalho mais ambicioso até aqui. O rapper carioca resolveu tocar em temas sérios, da paternidade a solidão, chegou no sample do Cartola e vestiu o manto de Nossa Senhora da Aparecida na capa. Mas o amadurecimento e responsabilidade não tiraram do álbum momentos, digamos, inusitados. Tipo uma homenagem ao baterista Eloy Casagrande, ex-Sepultura e atualmente no Slipknot, um rock que abre com o seguinte verso: “Batendo na bunda dela, tipo Eloy Casagrande”… Soa até fora do lugar, e Major admite isso, mas os fãs aguardavam por essa desde que ele entregou ela no Tik Tok. A seriedade não te livra do bate-cabeça.
O extraordinário só existe com a participação do ordinário. Maurício Pereira, conhecido também por ser pai do Tim Bernardes, observa isso dentro de toda sua obra. Repare em “Trovoa”, sua canção mais conhecida, onde ele fuma um Marlboro na rua como todo mundo. Ou a belíssima “Dia Útil”, sobre a rotina de trabalho do artista. O padrão, o comum, o modelo, reaparece na faixa de abertura do seu novo álbum, “Dia da Girafa”. Ao retratar esse homem standard ele mesmo, Maurício encontra de novo o extraordinário: esse qualquer um que namora a Sandra, chupa laranja e trabalha até tarde para alegrar a gente com suas canções. De fato, ele é Walter Stuart ou um peixe chamado Wanda.
Em “Sonho Real” de Ronaldo Bastos e Lô Borges, eles dizem: “Chega e instala a beleza/ Momento de sonho real”, ao falar sobre encontrar um par perfeito nesta vida. A “Sonho Real” de Teago Oliveira, primeiro single da Maglore para o álbum “Fluxo Natural” (sai 14 de agosto), recupera essa vontade amplificada ainda mais no lado B, a apaixonada “Raio de Sol”, escrita por Lucas Gonçalves: “Hoje eu tirei o dia todo para pensar em você”, diz a canção. Sonho vira realidade, vira um dia bom, o amor é o caminho – começo, meio e sem fim.
Cantora que estamos bem de olho, a Marina Mole vai lançar seu segundo álbum em setembro, chamado “Azucrim”. Figura carimbada do underground paulistano, a cantora, compositora e artista visual vem costurando uma sonoridade deliciosa em fita de rolo que às vezes tem cara de eletrorock de vanguarda, outras de surf rock sessentista e, como agora, em seu mais recente single, “Slowdancing”, um garagem punk tipo poesia falada, meio angelical/meio demoníaco, que remete tanto à Nova York do começo dos anos 80 quanto à Barra Funda 2026. Impressão é a de que vamos nos divertir bem quando “Azucrim” sair. Detalhe: o vídeo de “Slowdancing” é um who-is-who da cena indie nacional, com participação de integrantes das bandas Oruã, Exclusive os Cabides, Tutu Naná, Caco/Concha e Radio Color.
Ao escrever sobre diversos períodos da maternidade, Raquel Diaantas apresenta em “Cosmo Dorme”, seu segundo álbum, uma pequena descoberta de sensações e ritmos, como se desbravasse o mundo todinho pela primeira vez igual seu filho Cosme faz agora – filhote que aparece na capa do disco sendo amamentado pela mãe sentada no para-choque de uma caminhonete. O conceito do trabalho passa por um dia na vida, mas como diz ela “é um dia em que cabem todos os dias”. Pelo visto, ele já está rodando por aí vendo os belos dias e os não tão belos também, faz parte. Destaque também para a presença de Guilherme Lirio, atualmente viajando com a Dora Morelembaum por aí. Ele co-produziu e aparece em diversos instrumentos, saca a lista imensa: voz, coros, baixo, guitarras, violão de aço, violão de nylon, lap steel, Rhodes, Pocket Piano, Piano Elka 88, sintetizadores (Juno, Pocket Piano), Glockenspiel, AutoHarp, Maestro RK-2 Drum Machine, programação de bateria eletrônica, samples, afoxé, shakers e pandeirola.
Gui Hope, mineirinho que talvez você conheça da Chico e o Mar e de produções que fez para Paíra e Clara Bicho, estreia solo em “Eu Sei”, misturando tudo o que gosta ao mesmo tempo: o glitch eletrônico, um tanto do funk de BH e também suas influências mais antigas, como emo, nu metal dos anos 2000. Nada disso vai aparecer explícito ali, está nas entrelinhas, nós sabemos, Gui! Alguém manda esse som para a Charli XCX!!!
11 – Anitta – “Sem Pressa (com Mc Tha) (2)
12 – Pabllo Vittar – “Rockstar” (2)
13 – Rodrigo Vellozo – “Samba do Profeta (com Rodrigo Campos, Thiago França e Fumaça)” (2)
14 – Rashid – “YOWA” (3)
15 – Felipe Cordeiro – “A Festa” (3)
16 – Bruno Berle – “Você Já Sabe Que Eu Te Amo” (4)
17 – SEXCORP. – “Até Quando” (4)
18 – Joyce, Tutty Moreno e Adrian Younge – “Is This Love?” (4)
19 – Rincon Sapiência – “Homem Gol” com Marissol Mwaba e Péricles (5)
20 – Liniker – “Melhor Notícia” (5)
21 – Linn da Quebrada – “Nuvem Negra” com Fernando Catatau (6)
22 – Ema Stoned e Edgard Scandurra – “Conza das Horas” (6)
23 – Teresa Cristina – “Quando a Onda Passar” (7)
24 – Lô Borges – “Última Parada”/”Chegada” (8)
25 – Thiago Jamelão – “Apaixonado” (8)
26 – Alice David – “Terra Sem Rei” (8)
27 – Ítallo – “Nina do Avon” (9)
28 – João Carvalho – “Serra do Caraça/Itaúnas (Para Milton)” (9)
29 – Lulina – “Outras Vezes (com Ana Frango Elétrico)” (10)
30 – Luedji Luna – “Ela É o Que Há (com Jadsa)” (10)
31 – Michelle Abu – “Talvez Amor” (10)
32 – Bebé – “Meu Peito” (10)
33 – Exclusive Os Cabides – “Castelos de Areia” (11)
34 – Tangolo Mangos – “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça” (12)
35 – Marina Liori – “Água na Boca (com Tori)” (12)
36 – Juçara Marçal e Thais Nicodemo – “Cavaquinho” (13)
37 – Marcelo Cabral – “Grito” (16)
38 – Marabu – “Manda Beijo” (16)
39 – Buhr – “Voaria” (16)
40 – Novíssimo Edgar – “Zum Zum Zum” (17)
41 – Silva – “ROLIDEI” (17)
42 – Febem, Fleezus & CESRV – “M.P.B” (18)
43 – Rael – “Forma Abstrata” (18)
44 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (19)
45 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa)” (19)
46 – Schlop – “Clássicos” (19)
47 – Seu Jorge – “River Man (com Beck)” (19)
48 – Kuczynski – “Music 4 a Strip Club” (19)
49 – Ottopapi – “Meus Podres” (20)
50 – Mombojó – “Abaixo a Realidade (com Letrux” (20)
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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, a cantora Lulina, sob foto de seu instagram, @lulina13
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.