Olha o estado em que o Carnaval deixou a gente. Entre lançamentos de Charli XCX, Thundercat e James Blake, dedicamos mais linhas e tempo para o novo do U2. Sim, rendeu mais assunto o EP surpresa da turma irlandesa. A música pop é surpreendente, não?

Olha, em meio à polêêêêmica nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”, já em cartaz nos cinemas, dá para dizer aqui neste lugar quentinho que a trilha sonora de Charli XCX é bem superior ao calor provocado por Margot Robbie e Jacob Elordi. Longe da ironia de “brat”, aqui ela parece abrir espaço tanto para experimentações maiores em termos de som quanto para uma postura mais séria diante dos temas nas letras – amor, desejo e tentação. É menos carão no Instagram e mais segredos restritos aos diários. Resta entender se vai ser uma fase em si ou uma zona de transição. A ver como serão encarados os próximos projetos cinematográficos dela. Falando nisso, “The Moment” entra nas salas hoje.
Entre as mais esperadas de “Distracted”, próximo álbum do superbaixista Thundercat, estava esta inédita com seu falecido parceiro Mac Miller. Lembrando os momentos relaxados e divertidos compartilhados por eles em tanto sons, “She Knows Too Much” cumpre seu papel. “Gostaria que vocês estivessem com a gente no dia que escrevemos essa na garagem”, escreveu Thundercat no Instagram, onde também comparou a personalidade Miller com o trio de amigos formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr.. “Tranquilo como Frank, descolado como Martin e suave como Davis”. Pouco moral, né?
Provavelmente você nunca ouviu falar do Thee Sinseers. É uma banda de LA que vai um pouco além em suas referências aos anos 50 e 60 em termos de rock, soul e R&B, e eles também gravam ao modo antigo. “It Was Only a Dream”, um som de 2019, tem os ecos e ruídos de gravação de uma salinha capaz de comportar um microfone para a banda toda ali em 1954. Aproveitando essa energia única, James Blake e Dom Maker usaram tudo que apreenderam com Kanye West para arrancar dali um sample com textura transcendental. Depois só coube ao Blake caprichar na cantoria e no piano. Lindeza.
Por falar em anacronismo, o novo single de Lana Del Rey aproveita uma vibe retrô, quase fantasmagórica, para entregar versos em uma velocidade e flow quase de um rap moderno. Esse deslocamento é o que torna “White Feather Hawk Tail Deer Hunter”, escrita em parceria com sua irmã, cunhado e o maridão, tão agradável. Provavelmente constará em “Stove”, seu prometido e muito adiado disco country. Pelo visto não será um country capaz de fazê-la vir para Barretos.
Se no primeiro single de “Ricochet”, terceiro álbum da norte-americana Lindsey Jordan, fomos apresentados a guitarras pesadas, nesta “My Maker” ela vem toda fofa acompanhada de um bom violão. E, apesar da fofura, o papo é vida e morte. Em suas palavras, a reflexão sobre mortalidade aqui tem sentido positivo em uma pergunta decisiva: já que tudo vai se acabar, que tal aproveitar este intervalo até o fim?
Está vacilando quem não parou para escutar o trabalho solo da Yoko Ono. Tida como esquisita ou experimental demais, vários de seus álbuns estão cheios de esquisitices e experimentações, e daí?, mas também repletos de momentos de brilhantismo pop, sempre pensando lá na frente. Uma das oportunidades de curtir Yoko é aproveitar o relançamento gradual de sua carreira solo entre 1986 e 1985, material que estava fora do streaming até então. O da vez é “Season of Glass”, de 1981, o primeiro registro seu após a morte de Lennon – o disco é aquele com a famosa capa com os óculos de Lennon em uma janela ao lado de um copo d’água com Nova York ao fundo. “Walking on Thin Ice” é a última gravação que Lennon fez.
Dando aquela sacada de sempre no perfil da KEXP no YouTube demos de cara com o Mandrake Handshake, um octeto inglês que às vezes comporta mais gente em sua lógica de coletivo. O visual é meio hippie, a música também, mas rola uma mistura com o ambiente urbano e com muito mais gêneros musicais que a turma dos 60 e 70 ousou imaginar. Ótima pedida para relaxamentos.
Lava La Rue está por muitos cantos. Uma delas é ser uma das responsáveis pela capa do “Moisturizer”, concorrente ao prêmio de melhor capa no Grammy deste ano, estreia desta categoria. Ela não levou, mas fez seu barulho e agora solta seu primeiro single gravado com uma banda completa tocando ao vivo. Rockão.
Pelo visto, a sueca Lykke Li resolveu fazer coro com Rita Lee e está de saco cheio das pessoas que são “todas boazinhas, todas do bem, tão galera”. Em seu próximo disco, que ela diz ser provavelmente o último, quer lidar com o pior de nós: sentimentos de vingança, inveja, vergonha, desespero. Por isso, resolveu apelar a Vivaldi em sua “Lucky Again”. Braba!
De surpresa, o U2 lançou um EP com seis faixas chamado “Days Of Ash”. Prometendo um álbum ainda para este ano, Bono explica que a razão de lançar um EP antes diz respeito ao tom das canções, mais urgentes do que o costume. “Days of Ash” é sobre a situação política do mundo em várias camadas. Temos aqui comentários sobre os Estados Unidos de Trump (“American Obituary” é dedicada e cita Renée Good, assassinada pelo ICE), Irã, Ucrânia e Palestina. “One Life at a Time”, por exemplo, é baseada em uma fala de Basel Adra, diretor de “Sem Chão”, documentário vencedor do Oscar. Quando o palestino Awdah Hathleen, ativista e participante do filme, foi assassinado por um colono isralense, Basel definiu que assim era o modo de limpeza étnica praticada por Israel: “Uma vida por vez”. Edge e Bono tentam usar a frase como solução. Se o mundo pode ser destruído “uma vida por vez”, pode também ser salvo desta maneira. Já é uma colocação mais forte do que o posicionamento pouco energético da banda no auge do extermínio na Palestina. Em termos sônicos, “Days of Ash” tem canções razoáveis e produção ligeira. A mixagem parece baixa e tão apressada quanto o tempo de vida das canções. É um U2 mais cronista e menos épico. Uns vão gostar e outros dirão que canções como “Where the Streets Have No Name” ou “Pride” já disseram as mesmas coisas de forma melhor. Ao mesmo tempo, não são opiniões excludentes. Ficamos com as duas.
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* Na vinheta do Top 10, a cantora inglesa Charli XCX.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.