
E o novo disco dos Strokes, hein?
Quem diria que os outrora salvadores do indie rock de Nova York chegariam a 2026 gravando disco na Costa Rica com o supremo produtor Rick Rubin e metendo o pé no acelerador da esquisitice. Pelo menos é uma atitude.

“Reality Awaits”, o sétimo álbum dos caras, dessa capa aí de cima, desceu inteirinho para o “play” na meia-noite desta sexta, com a imprensa gringa amando (ou pelo menos tentando amar, no caso) e odiando na mesma velocidade, dentro dos que já soltaram resenha desde o final da noite de ontem.
Brincando com o título do disco, a Rolling Stone americana disse que a realidade doeu demais e deu uma nota morna, reclamando do excesso de auto-tune, que tem mesmo dividido os fãs desde que o primeiro single foi mostrado. Mas, por outro lado, os indies mais chegados a um descontrole controlado até que já estão defendendo o disco no Reddit. É basicamente o irmão gêmeo, meio sombrio e meio torto, do “não-tão-ruim” The New Abnormal. Isso seria bom? Sim e não.
Não é fácil ser uma banda como os Strokes. Depois de três álbuns iniciais importantíssimos no começo deste século, o grupo de Julian Casablancas embarcou numa carreira errática de poucos discos e muitos problemas internos, um sumiço longo, uma tentativa de reinvenção para uma nova geração, uma banda paralela desastrosa e uma volta até que gloriosa nestes tempos em que mais vale ter um grande show ao vivo (tocando os sucessos de outrora) do que um grande disco de estúdio que produza material inédito (que valha ingressos caros para conferir).
Nessa chegamos a julho de 2026 e ao sétimo disco strokiano, o famoso HOJE, quando este “Reality Awaits” aparece nos streamings com o “azar” de sair, só como curiosidade, no mesmo dia em que o absurdo novo disco da Charli XCX, uma rainha da reinvenção vivendo legitimamente em seu tempo, entendendo ele.
Mas, enfim, “Reality Awaits” é ruim? Não é. Mas também não é bom, sendo um disco de alguém que traz um passado musical tão importante como os Strokes. O real exercício está em tentar entender quantas músicas do disco novo faz sentido ficar num setlist dos Strokes no Coachella, por exemplo, depois que a tour do disco acabar. Ou no do Primavera Sound São Paulo, em dezembro.

Algumas observações (minhas, claro):
– uma certa abertura de impacto: O disco de apenas nove faixas abre logo com “Psycho Shit”. A música começa num clima arrastado, meio gótico, e traz Julian questionando o próprio legado. É Casablancas sendo o cientista louco que ele adora ser no The Voidz, aqui com um som um pouquinho melhor.
“O que foi que eu fiz? Nós somos os mesmos
Como uma boneca, ontem eu era tudo que você amava
Não me importo com quem fique decepcionado, desde que não seja você
Foda comigo sob o luar, agora já era, não tem mais nada dentro”
– velhos tempos: Se você estava com medo de o rock ter morrido de vez na mão deles, o primeiro single “Going Shopping” até que acalmou um pouco os ânimos. Tem aquela bateria precisa do Fab Moretti e as guitarras de Nick Valensi e Albert Hammond Jr. conversando perfeitamente, bem naquela vibe Television que fez a banda virar o que virou. É pop, é rápida, é um Strokes cheirando ao clássico, guardadas as devidas proporções. Ou, como costuma-se dizer hoje, é uma música “Sabor Strokes”.
– Julian “Drácula”: Mas nem tudo são flores. Em faixas como “The Fruits of Conquest”, Julian resolveu cantar imitando uma espécie de Drácula em pista de dança dos anos 80 e repetindo “I’m a leech” (“Eu sou um sanguessuga”) à exaustão. A ideia de um veterano como ele sugar a vibe de um artista novo é genial na letra, mas a música em si não rolou. A “Rolling Stone” odiou, disse que a música ficou “inoperável”. Melhor termo para uma canção ruim que já ouvi (li).
– o sotaque inglês: Em “Dine N’Dash”, que evoca guitarras limpas com cara de New Order e The Cure, o vocalista resolveu meter um sotaque britânico forçado. Loucura pura. Mas louve-se que eles estão tentando escapar das fórmulas que os aprisionam num passado longínquo maravilhoso que não existe mais. Esta música e muitas do disco novo é tipo essa coisa que vivenciamos recentemente, que foi o desejo equivocado de alguns de querer o Neymar na Copa em nome de uma ideia de passado, em busca de uma “memória afetiva”, e não encarando a realidade (reality awaits). Porque no fim todos sabíamos como aquilo ia acabar.
– I love auto-tune: a faixa que talvez eu mais tenha gostado, que remete a uma das primeiras canções onde tudo começou, a musiquinha “Is This It”, é a que MAIS TEM AUTO-TUNE. Falo da baladinha “Falling Out of Love”.
– o encerramento psicodélico: O álbum fecha com “Tyrants of the Mellow Moon”, um caldeirão que mistura momentos à lá Radiohead, solo de guitarra oitentista e Julian mandando um falatório meio Jim Morrison no final.
– o “veredito”: Como bem destacou a Consequence, os caras entraram oficialmente na era do “não há regras”. Não temos um novo Is This It, e nunca mais deveríamos esperar isso. O próprio Juian disse que não quer nunca mais saber de “Last Nite”. Mas, como o próprio Albert Hammond Jr. andou dizendo por aí nas entrevistas, o negócio é não olhar demais para o passado e simplesmente se jogar no trem. Seja qual o rumo para onde ele está indo.
Se você conseguir o milagre de não comparar “Reality Awaits” a NADA, nem com os Strokes no passado, nem com nada novo, dá até para embarcar nesse trem. Se você falhar, acaba logo a audição desse disco e vai ouvir os novos do Steve Lacy e da Charli XCX.