* Morrissey, ele mesmo, começou seu 2026 de forma oficial. E, pelo visto, para valer. O controveeeeerso cantor inglês lançou o single “Make-Up Is a Lie”, faixa que carrega aquele título bem típico do universo mórbido e irônico dele, e confirmou que a música é o cartão de visita de um novo álbum de mesmo nome, com lançamento marcado para 6 de março. A canção foi escrita em parceria com a tecladista Camila Grey e marca também a nova fase de Morrissey na gravadora Sire, braço da Warner, além de uma reunião com o produtor Joe Chiccarelli, nome por trás de discos recentes da carreira solo do ex-vocalista dos Smiths. No tracklist, um detalhe que deve empolgar fãs mais nerds é a presença de uma releitura de “Amazona”, clássico do Roxy Music, o que sugere um disco que flerta abertamente com as referências glam e art rock que sempre rondaram o trabalho dele. O lançamento vem depois de anos de indefinição em torno de “Bonfire of Teenagers” e “You’re Right, It’s Time”, álbuns já gravados e nunca lançados, constantemente mencionados por Morrissey em entrevistas e usados por ele como exemplo de como sua trajetória foi atravessada por boicotes, polêmicas políticas e uma relação tensa com a indústria desde “I Am Not a Dog on a Chain”, de 2020. Isso tudo na ótica dele, claro. Mas estamos aqui (ainda) pela música.
Make-Up Is a Lie – Tracklist
01 You’re Right, It’s Time
02 Make-Up Is a Lie
03 Notre-Dame
04 Amazona
05 Headache
06 Boulevard
07 Zoom Zoom the Little Boy
08 The Night Pop Dropped
09 Kerching Kerching
10 Lester Bangs
11 Many Icebergs Ago
12 The Monsters of Pig Alley
* Enquanto Morrissey tenta reorganizar sua própria mitologia, quem segue em linha ascendente, com menos ruído fora de campo e muita consistência no estúdio, é o grupo inglês Dry Cleaning. A banda londrina de pós-punk lança seu terceiro álbum, “Secret Love”, reforçando a impressão de que é um dos grupos mais sólidos da safra recente do gênero. O disco foi produzido por Cate Le Bon e composto em estúdios ligados a Jeff Tweedy e à Gilla Band, o que já dá um sinal de como o grupo gosta de circular por ambientes onde a guitarra torta e a estranheza são bem-vindas. Em “Secret Love”, cada integrante ganha mais espaço de destaque: as frases faladas e cortantes de Florence Shaw brilham em “Cruise Ship Designer”, enquanto o baixo de Lewis Maynard ganha textura quase de madeira em “Hit My Head All Day”. Mais do que um “retorno à forma”, o álbum soa como a confirmação de que o Dry Cleaning nunca saiu dela. Ótima audição primeira, inclusive.
*** Já o cool e veterano trio inglês The Cribs chega ao nono álbum, “Selling a Vibe”, com o tipo de confiança de quem sabe exatamente qual é o seu lugar na história do rock britânico contemporâneo. Prestes a completar 25 anos de estrada, o grupo dos irmãos Jarman abraça de vez a ideia de que o maior capital que ainda possuem são os refrões imediatos. O título brincalhão conversa com a proposta do disco, com guitarras jogadas para um filtro ensolarado, melodias que grudam logo na primeira audição e uma leveza que não apaga o DNA indie, mas deixa tudo mais arejado. Produzido por Patrick Wimberly, ex-Chairlift, “Selling a Vibe” puxa o som da banda para um lado tanto mais pop, de construção clara e atitude relaxada. Mas com limites, é claro. Faixas como “Never the Same” e “Summer Seizures” são puxadas pelos riffzinhos indies marcantes de uma banda experiente, mas que aprendeu a desacelerar sem perder o charme. Sempre uma boa pedida.