Popload entrevista: Drink the Sea. Superbanda indie faz show em SP na quarta

Como é o caso de muitos “supergrupos”, você pode ainda não conhecer a banda, mas certamente conhece seus integrantes. Barrett Martin (Screaming Trees, Mad Season), Peter Buck (R.E.M.), Alain Johannes (Queens of the Stone Age) e Duke Garwood (Mark Lanegan Band) formam o Drink the Sea, projeto meio rock, meio world music que já lançou dois discos e toca em São Paulo nesta quarta-feira.

Quando surgiu a oportunidade de conversar com dois de seus integrantes (Martin e Buck), obviamente aceitamos. Ao descobrimos que todos os quatro estariam presentes na entrevista, foi uma surpresa bem agradável. Johannes acabou liderando a maior parte da conversa, e Garwood fez uma única, porém significante, contribuição.

Confira abaixo nosso papo com o Drink the Sea, falando sobre seu processo criativo, colaborações com Nando Reis e, por que não, “superar” o R.E.M. Lembrando que a banda fará sua apresentação única em SP, amanhã, 25 de março, na Casa Rockambole.

Popload: Como vocês apresentariam a banda para alguém que só conhece os projetos anteriores de vocês e não sabe o que está por vir? 
Alain Johannes: Eu diria que, de certa forma, o nosso trabalho anterior te prepara um pouco para o que vem aí. Ao mesmo tempo, é uma surpresa, porque estamos indo em direções que nenhum de nós visitou individualmente no passado. Além disso, seria imprudente da minha parte tentar descrever ou limitar a experiência de alguém ao ouvir o disco do seu próprio jeito. Mas certamente dá para ouvir um pouco de cada um de nós no projeto.

Popload: O nome da banda, Drink the Sea, é referência a algo? 
Barrett Martin: Eu estava gravando as vocais do Duke e ouvi ele cantar “To drink the sea, to drink the sea” duas vezes. Aí eu disse ao Duke: “Cara, acho que esse é o nome da nossa banda”. Deixa implícito que estamos dispostos a experimentar tudo que vem de todos os cantos do mundo. Não há dúvida disso.

Popload: Projetos como Screaming Trees e R.E.M. podem parecer bastante diferentes entre si. O que uniu musicalmente todos os membros da banda? 
Barrett Martin: Somos todos compositores e já tocamos juntos em diferentes configurações. Peter e eu tocamos juntos há 35 anos e trabalhamos em mais de 40 álbuns. Alain frequentava Seattle, trabalhando com amigos em comum. Duke e Alain trabalharam juntos. Todos nós trabalhamos com Mark Lanegan em diferentes projetos. Então, continuando o que Alain estava dizendo – para descrever esta banda eu diria que somos um grupo de compositores da geração alternativa original. Encontramos uma voz muito singular ao combinar todas as nossas influências diferentes.

Popload: Com tantas influências assim, como vocês abordam o processo de composição? 
Duke Garwood: A gente começa as músicas. E a gente termina elas [risos].
Alain Johannes: Estamos sempre criando coisas. Passamos tempo juntos em turnê, em ensaios, e temos acesso a estúdios – agora mesmo estamos em Pichilemu, no Chile, gravando material. Todo mundo tem ideias o tempo todo. Daí rola: “Ei, gostei disso, posso tocar junto?” ou “Olha só o que eu trouxe”. Praticamente todo mundo traz coisas o tempo todo, e há uma confiança mútua para que cada um acrescente às músicas que o outro começou e as finalize. Às vezes parte de uma jam – gravamos algumas passagens de som que acabaram virando músicas. Peter é uma máquina de composição: riffs incríveis o tempo todo. Duke também traz muita coisa boa. Já estamos na verdade bem adiantados nos próximos discos, sem nem ter tentado muito. A gente está vivendo o dia a dia. Não ficamos sentados pensando: “Temos que compor para o novo disco”. Acontece naturalmente. 
Barrett Martin: Gravamos 30 músicas nos últimos dois meses e meio. É prolífico.

Popload: Pelo que sei dos seus históricos, vocês não são do tipo de músico que sofre de bloqueio criativo, não é?
Alain Johannes: Não mesmo. Mas todos estamos muito conectados à musa. Todos gostamos de ter um instrumento musical na mão, estamos sempre prontos para “receber transmissões”, seja lá como você queira chamar isso. Até agora não tivemos um momento em que ficamos tipo: “Ai, não sei o que fazer”. E, se você analisar nossos históricos, já fizemos parte de tantos projetos. É um estilo de vida, sabe? Mais do que uma mera carreira. Estamos sempre sendo criativos.

Popload: Uma pergunta especificamente para o Peter: li há alguns dias que seu ex–parceiro do REM, Michael Stipe, mencionou que compor para um álbum solo é muito difícil, que parece impossível superar o R.E.M.. Alguma vez você já teve uma preocupação similar? 
Peter Buck: Nunca me preocupei com isso. Como você supera o R.E.M.? Bem, você não supera. Quer dizer, nunca mais gravei um disco que soasse como aqueles. Fiz outra coisa. Gosto das músicas que estou compondo. Gosto das pessoas com quem toco. Não dá para ficar pensando nessas coisas. Cada dia você acorda como uma pessoa nova. Você faz arte nova e segue em frente. É assim que eu vivo.

Popload: Alain, como você se envolveu nessa história? Porque eu sei que Barrett e Peter já tinham trabalhado muito juntos.
Alain Johannes: Tive o prazer de conhecer Peter através deste projeto. Duke e eu nos conhecemos muito tempo atrás, quando [Mark] Lanegan e Duke estavam tocando juntos, e eu fiz parte de alguns desses projetos, produzindo. Depois Barrett e eu nos conhecemos, acho que há dez anos, através das visitas que todo mundo fazia ao [famoso estúdio] Rancho de la Luna, em Joshua Tree. Aí Barrett e eu decidimos, uns três anos atrás, nos reunir na casa dele e tocar. Gravamos aquela jam, que se tornou a base de algumas músicas. A partir daí, onde quer que esses caras estivessem em turnê, gravávamos. Aí Peter e Barrett foram a São Paulo e gravaram mais. Foi ganhando uma identidade e um conceito de banda, cresceu de forma bem natural. Aí percebemos: “Ei, temos uma banda e um álbum duplo”. E conforme vamos avançando e seguindo em turnê, continuamos compondo e gravando. Vamos levar isso adiante enquanto estiver cheio de vida – e está. Estamos nos divertindo muito.

Popload: Quando vocês tocam ao vivo, incluem músicas dos projetos anteriores? Se sim, como escolhem o que entra no setlist?
Barrett Martin: Sim, a maior parte do nosso set é composta pelos dois primeiros álbuns do Drink the Sea, mas escolhemos algumas do passado também. Tocamos uma do R.E.M., uma do Mad Season, algumas músicas do Alain – uma delas que foi gravada pelo Queens of the Stone Age. Somos orgulhosos das nossas bandas antigas e dessas músicas, e algumas delas se encaixam muito bem com a instrumentação desta banda.

Popload: Vocês comentaram que o Nando Reis estará no show aqui no Brasil. O que podem nos contar sobre isso?
Peter Buck: Barrett e eu já trabalhamos com o Nando. Fizemos uma turnê de cinco meses com ele. O ideal é que a gente ainda lembre as músicas [risos]. Ele vai cantar algumas músicas conosco no show, e acredito que vamos gravar juntos. Ele faz parte do conjunto.
Barrett Martin: Gostamos de trabalhar com pessoas de todo o mundo com quem temos uma conexão direta. Quando Peter e eu estávamos em turnê com o Nando alguns anos atrás, Duke voou de Londres e fizemos uma sessão de gravação em São Paulo. Então temos essa ligação com o Nando de forma bem natural e orgânica. Ele me disse que queria fazer tipos de música diferentes do que ele normalmente compõe. Peter e eu tocamos com o Nando nos discos dele desde o ano 2000 – são 26 anos de colaboração. É muito natural.

Popload: E ele pode ser o tradutor de vocês aqui também, o que deve ajudar, né?
Barrett Martin: Na verdade, o Peter está ficando muito bom em falar português.
Peter Buck: [em português] Eu falo português como uma vaca.

Popload: Peter, você sabe como os brasileiros pronunciavam “R.E.M.” quando a banda começou a ficar famosa aqui?
Peter Buck: Não era tipo “Haim”? Por mim tudo bem. Haim é uma das minhas bandas favoritas.


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* Os ingressos para o show do Drink the Sea na Casa Rockambole, em São Paulo, estão disponíveis para compra aqui.

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