O inglês Robin Skinner, que faz música sob o nome Cavetown, sempre esteve ali, sem muito alarde, num limbo intimo de fazer canções de amor dentro do quarto, à espreita de um instante quase mágico em que o modo shuffle da playlist resolve conspirar com o destino e apresenta sua voz, pela primeira vez, a um novo ouvinte.
Digamos que, nesse primeiro encontro, o impacto inicial quase sempre nasce da associação. Um millennial talvez pense imediatamente numa faixa perdida da trilha sonora do filme “Juno: (2007): algo fofo, torto e intimista, na linha de “Anybody Else but You”, eternizada por Michael Cera e Elliot Page. Já um gen-z pode ser puxado para uma nostalgia recente, lembrando-se de todas as vezes em que “Coffee”, de Beabadoobee (com quem Cavetown já colaborou), serviu de pano de fundo para embelezar um vídeo no TikTok. Mudam as referências, mas o sentimento é o mesmo: um aconchego imediato.
Às vésperas do lançamento de seu novo álbum, “Running with Scissors”, que saiu sexta passada, essa primeira impressão começou a se expandir e o que antes parecia restrito ao universo bedroom pop lo-fi agora ganha mais camadas. O poploader Vinicius Dota bateu um papo com o artista sobre riscos criativos, gentileza na música pop, arte e os caminhos que atravessam o novo disco, seu sexto, talvez o primeiro ou segundo que promete levar mesmo Cavetown a outros lugares em comparação de seus lançamentos anteriores, feitos de dentro do quarto para dentro do quarto.

Popload – Sua música evoluiu bastante ao longo dos anos, com arranjos mais refinados, novas texturas eletrônicas e colaborações. Como você define essa fase atual da sua carreira?Robin Skinner – Acho que todo esse processo do álbum tem a ver com a metáfora central do disco: assumir riscos criativos e também sociais, e tentar expandir meus próprios limites. Durante muito tempo, fui extremamente controlador com meu som e com o meu processo criativo. Coloquei muitas barreiras. Chegou um momento em que senti que precisava mudar isso, aprender com pessoas novas e me abrir mais. Em sessões de composição, você precisa ser vulnerável para que as pessoas entendam o que você quer dizer, e isso sempre foi algo difícil pra mim, inclusive na vida pessoal. Este álbum agora foi uma forma de me forçar a ser honesto sobre meus sentimentos e confiar que isso seria bem recebido. Aprendi muito com isso e fiquei positivamente surpreso. Descobri que não sou difícil de trabalhar e que trocar ideias é algo extremamente rico. Esta fase da minha vida tem sido sobre experimentar, correr riscos e confiar que isso pode dar certo. E, se não der, ainda assim vou aprender algo.
Esta nova fase, mais vibrante e cheia de energia, já fica nítida nos singles lançados até aqui, como “Rainbow Gal” [acima] e “Sailboat”, parceria com Chloe Moriondo. Até o título do disco ajuda a decifrar o espírito deste momento, e a mensagem que ele carrega, quase engasgada na garganta. A expressão “running with scissors” [correr com tesouras] fala sobre agir de forma arriscada mesmo quando o perigo é evidente: impulsividade. Sobre apaixonar-se rápido demais. Dizer o que talvez não devesse. Expor a própria fragilidade. Existir fora do padrão.
Popload – Em músicas como “Rainbow Girl” e “Sailboat”, você usa metáforas visuais fortes, como “minha cor favorita é você” e “serei sua tela”. Isso se conecta com outras habilidades artísticas suas?Robin – Com certeza. Sou uma pessoa muito visual e tátil. Gosto de comparar as coisas que amo com obras de arte. Amo cores, minha casa é cheia delas (movendo a câmera para mostrar o interior da sua sala de estar). Acho que passei a enxergar ainda mais beleza e cor no mundo por causa do meu relacionamento, que influenciou muito este álbum. Estou com o amor da minha vida há quatro anos e escrevi o disco ao longo dos últimos três, então cresci emocionalmente ao mesmo tempo que o projeto crescia. Estar apaixonado mudou a forma como vejo o mundo. Essas metáforas visuais são, basicamente, como eu entendo a vida.
Popload – Existe alguma palavra ou tema que você gostaria que aparecesse mais na música pop?
Robin – Não exatamente uma palavra específica, mas acho que sempre há espaço para mais gentileza e honestidade. Especialmente em músicas feitas por homens. Muitos evitam explorar as nuances dos sentimentos, e isso é algo contra o qual sempre tentei lutar. Seria muito bom ouvir mais sobre sentimentos conflitantes, autoestima, fragilidades. Acho que precisamos muito disso, principalmente vindo de vozes masculinas.
Popload – Você comentou que “Sailboat” tem sido um desafio de levar para o palco. Você escreve pensando na performance ao vivo?
Robin – Desde que tenho uma banda, sim, sempre escrevo pensando no show. Mas neste álbum eu acabei escrevendo coisas meio impossíveis, especialmente para bateria e teclados, porque eu não toco esses instrumentos.
A sorte é que tenho um baterista incrível e um diretor musical excelente, que ajudam a traduzir esse caos em algo tocável. Confesso que fiquei nervoso, mas os ensaios foram ótimos. A banda elevou muito o nível, todo mundo estudou demais.
Isso me dá muita segurança no palco. Posso focar nos vocais e na guitarra sabendo que eles dominam suas partes. No fim, esse desafio me fez crescer como músico, especialmente como guitarrista. Foi difícil, mas muito divertido.
Popload – Você também fala bastante sobre a relação com sua irmã mais nova. Que legado você espera deixar para ela?
Robin – Desde que soube que ia ser irmão, senti que precisava estar presente e apoiá-la. Isso me fez amadurecer rápido. O mundo hoje é muito diferente de quando eu era bebê, então sinto uma responsabilidade enorme de protegê-la, especialmente do que existe na internet.
Ao mesmo tempo, sou grato por ter vivido minhas próprias crises de identidade e saúde mental, porque eu precisava de alguém assim quando era mais novo. Quero ser essa pessoa para ela, se e quando ela precisar. Também é muito especial vê-la crescer — sempre quis ter um irmão.
Popload – Você apoiaria se ela quisesse seguir uma carreira artística?
Robin – Totalmente. Venho de uma família muito musical, e ela já demonstra isso mesmo com poucos meses, já fica cantarolando enquanto brinca. Acho que vai ser uma pessoa muito criativa.
Já imaginei dar uma guitarrinha pra ela e tocar junto, mas sem forçar nada. Criatividade vem da espontaneidade. O que me anima é a ideia de fazer arte com ela da forma que ela quiser.
Popload – Tivemos uma listening party de “Running with Scissors” aqui em São Paulo. Você esperava ter fãs em um lugar tão longe do seu quarto, para que um evento assim acontecesse?
Robin – É muito louco pensar em pessoas do outro lado do planeta ouvindo músicas que ficaram tanto tempo dentro da minha cabeça. Sou muito grato por isso. Espero que as pessoas tenham uma experiência intensa com o álbum, que sintam os altos e baixos emocionais, que se surpreendam, se inspirem e encontrem nele uma liberação de energia, se for isso que precisarem.

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* “Running with Scissors” (capa acima) chegou sexta-feira passada, dia 16, em todas as plataformas, cheio de charme, honesto e merecedor de umas boas escutadas.
** A foto de Cavetown que ilustra este post é de Jaxon Whittington.