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POSTADO DIA 14/08/2026


Nem tão millennial, nem tão gen Z. Daddy issues, amores para uma vida inteira e o sentimento de não pertencer à realidade que ela mesma construiu. Em seu terceiro disco solo, “Lost Weekend”, que está sendo finalmente lançado hoje, Phoebe Bridgers sintetizou em 16 faixas, perfeitamente produzidas, 17 se contar a música bônus, o que é ter 30 e poucos anos hoje em dia. E o que pode chocar muitos é que não é tão diferente de ter 20 ou 40 anos, porque ela faz jus ao seu sobrenome e constroi a ponte perfeita entre as gerações do indie, folk e rock.

“Crying in a suit and tie/ But you should see the other guy.” Em “The Outside”, a música de abertura, ela já dá o tom do disco. Com a sua voz distorcida pelo vocoder, Phoebe Bridgers deixa o público entrar novamente em sua vida, falando sobre uma das suas maiores dores nos últimos tempos, que foi a perda do seu pai, com quem ela tinha uma péssima relação. E que marcou muito seu envolvimento com os fãs. Foi a caminho do funeral dele, em Ohio, que ela teve uma das maiores situações de desrespeito de sua privacidade. Isso desencadeou muitos dos comportamentos que estamos observando em sua persona pública e na divulgação deste novo trabalho.
Desde o início do disco a artista já coloca uma linha bem clara do que ela quer compartilhar com as pessoas e o que ela vai segurar para ela. As músicas são pequenas janelas em que não há separação entre alegrias, tristeza, ansiedades ou desejos. E as sonoridades variam entre delicadezas, distorções e efeitos eletrônicos, tudo existindo ao mesmo tempo.
Na sequência, temos “Lost Boys”, o single que reforçou o discurso de anos de Phoebe sobre os diferentes tratamentos entre homens e mulheres na sociedade, além de refletir também sobre toda essa dinâmica de viver dentro da máquina da Indústria musical, como ela canta no trecho “This machine is killing me / I pretended it was make believe”.
A faixa seguinte, “Kill Me”, com texturas eletrônicas perfeitamente colocadas que evidenciam muito o trabalho de produção de Alex G, já começa a entrar no assunto de seu novo amor. Phoebe canta “Bobbie, you taught me that I know nothing”, e aqui temos um raro momento em que ela fala sobre sua relação com Bo Burnham, que teve início em 2023.
De novo os arranjos de cordas, feitos por Rob Moose, colaborador de longa data de Bridgers, contrastam com um quase permanente violão guia para ir de encontro direto com um breakdown inesperado, que ganha ainda mais profundidade com o coro de ninguém mais ninguém menos do que Cameron Winter, da banda Geese, para acabar de uma forma tão abrupta que te faz sentir como se tivesse perdido algo. Esta música é uma epítome da estética sonora que Bridgers vem construindo ao longo de sua carreira.
Já mencionamos bastantes colaboradores no texto, mas a ficha técnica é todo um texto à parte, como fez a Pitchfork, porque o disco não para nos usuais de Phoebe, como Christian Lee Hutson e Tony Berg, e se estende a surpresas como Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs) na guitarra, composições da atriz Maya Hawke, o já mencionado Cameron Winter e um retorno inesperado de Isaac Wood, ex-frontman do grupo britânico Black Country, New Road.
Mas um ponto que gera atrito entre os fãs é o retorno do Marshall Vore, baterista de longa data de Phoebe, mas que carrega uma bagagem de relatos de abusos que vai bastante contra o discurso da cantora, principalmente quando o caso se assemelha tanto ao que a própria teve com o guitarrista-cancelado Ryan Adams.

Voltando a “Lost Weekend” (capa acima), em “The Governor’s Walts”, que faz alusão à participação de Bridgers no festival nova-iorquino Governors Ball, a gente tem um bandoloncelo belíssimo de Christian Lee Hutson em contraste com os backing vocals distorcidos de Caroline Shaw. Mas o destaque para o arranjo da faixa entra aos 2 minutos, quando ouvimos o som vazado de uma festa de Ano Novo, efeito que é a cara do produtor Jack Antonoff, dando uma sensação cinematográfica de estarmos na sala com a artista. Para então virem os acordes invertidos que evidenciam o real teor triste da música por trás da valsa.
Ah, claro, não podemos deixar de falar que, sim, essa é a “diss track” de Bridgers para Gracie Abrams. Mas que, ao ouvir a música completa, a parte famosa da letra, “And she can pretend to be me/ Since she took my place in my bed on that stage” fica menos crítica e mais resolutiva porque é seguida por “I have not lost any sleep/ Being myself wasn’t easy/ Do it for me”. No grande contexto, a canção parece menos um ataque e mais Phoebe contando seu lado de uma história que já passou.
Até porque quem precisa de Paul Mescal quando se tem Bo Burnham. Muito se fala sobre o sumiço de Phoebe, mas pouco se diz sobre seu parceiro de sumiço, Bobby. Com seus milhões de seguidores, Burnham também se afastou dos holofotes nos últimos anos, e fez uma primeira aparição no disco de sua amada na faixa com seu nome.
“Bobby” transmite a certeza aos fãs do casal low-profile de que Bridgers está contente, como evidencia a frase “This could be the end of wanting”. Assim como é a faixa mais animada do disco até aquele momento. E ela termina com o som de uma TV que ficou ligada ao fundo num cômodo em que a intimidade já foi estabelecida, mais uma artimanha de produção para fazer o ouvinte se sentir parte do momento.
A faixa-título do disco, “Lost Weekend”, parece ser a grande hora de questionamento do álbum, em que Bridgers reflete sobre sua vida nos últimos anos, desde sua juventude ao momento atual, passando por algumas inseguranças, como a alusão ao assassinato de John Lennon em “Surviving my gift until I get shot”, ou o momento em que terminou seu noivado com Mescal: “I’m supposed to be married, but I called it off”. Falando de seu ex em uma composição com créditos de seu atual, você definitivamente tem culhões, Phoebe Bridgers.
Mas, antes de acabar a música com a pedrada que é a letra “You know me, and I’ll never forgive you for that”, vem mais breakdown de sintetizadores de Antonoff e Alex G, com a respiração arfada de Bridgers ao fundo, tudo dando aquela sensação de ela estar perdida no meio da pista com sua vida passando em frente ao seus olhos, em câmera lenta. Um disco muito sensorial e cinematográfico, uma especialidade de Antonoff, que trouxe para este trabalho elementos que remetem muito a seu trabalho em “Melodrama”, disco de 2027 da Lorde.
Já em “Haunted” temos uma reunião das Boygenius em uma faixa country, que traz um pouco do melhor que o trio faz quando está junto: harmonizar suas vozes incríveis enquanto cantam letras que podem enganar um ouvinte menos atento. Apesar de seu ritmo animado, Bridgers faz algumas confissões profundas ao dizer “I have no secrets, only feelings/ And I know those go away/ There’s a difference between lying/ And deciding what not to say”.
Na sequência temos um meio do álbum que lembra muitos os discos anteriores de Phoebe. “Panorama” é uma faixa mais curtinha e de letras sucintas, mas que parece a trilha sonora para um pesadelo enquanto se está acordado. Ou seja, a vida atualmente em todo seu caos. “Still Standing”, e seu uso impecável de síncope entre letras e arranjos que dá uma sensação de desconcerto, lembra muito a música “Punisher”, e destaca um estilo lírico que Bridgers executa com maestria. E “Liberty Tree”, que começa muito interessante e tem um que de “Stranger in the Alps” meio country.
Esse quase medley de sua carreira num momento em um disco longo de 16 faixas poderia resultar em perda de força. A grande maioria dos discos longos tem aquelas músicas puláveis. Mas Bridgers garantiu que este não seria o caso para seu terceiro trabalho.
Voltamos ao presente com “Never Going Back”, em que os vocais mais crus têm o acompanhamento instrumental pontuado por um banjo estridente de Ethan Gruska, e aqui entramos em mais uma janela para dentro do relacionamento de Bridgers e Burnham. Mas a mensagem é clara: a cantora não vai voltar a como sua carreira era antes.
Em seu terceiro ato, “Lost Weekend” mostra uma parte mais mística de Bridgers, começando com a faixa “Other Plans”. E ao cantar “I remember the day I created the world”, Phoebe coloca o amor com uma força divina e o eu-lírico assume esse papel de Criador.
“Lost Parade” chega como um interlúdio instrumental que retoma os elementos estéticos do disco, e principalmente para reforçar esse aspecto dele como uma visão dentro da mente de Bridgers. Isso antes de “I Can’t Wait”, uma das músicas mais interessantes do disco.
A décima-quarta faixa dá início à catarse do álbum. Une os elementos de eletrônica aos recursos orgânicos, permeando a estética de Bridgers, com direito à gaita tocada por Conor Oberst. E nas letras a artista faz as pazes com seus dois lados: “All my life/ Side by side/ Hyde Jekyll Hyde/ Finally together”, citando o livro de Robert Louis Stevenson, e cantando mais uma vez com Cameron Winter.
O grande ápice do disco vem em “As Above”, uma música que remete a uma frase central do hermetismo, “As above, so below/ As it was, so it goes”, uma máxima da famosa tábua de esmeralda que fala que “O macrocosmo do universo e o microcosmo da alma humana refletem as mesmas exatas leis”. Você pode não acreditar em bruxas, pero que las hay, las hay, e Bridgers também não se importa se você acredita, como canta na música “You don’t have to believe in magic/ Leave it to me and I’ll make it happen”.
E parece que essa faixa em especial será bastante importante nesta nova era de Phoebe Bridgers. Os sinais que ela vem dando, desde seus shows secretos em cidades que têm histórico de passagens extraterrestres e audições em planetários à nomenclatura dos setores de seus shows, cujas pistas têm os nomes de Above e Below, apontam para uma grande relevância para essa música e todas as suas referências místicas.
Como em seu primeiro disco, Phoebe encerra “Lost Weekend” com uma reprise que dá um desfecho aos elementos e histórias que foram citados ao longo do trabalho, começando com a percepção de que “He’s not comin’ back as a bird/ he’s not coming back” sobre seu pai, fazendo as pazes com o fato de que o que aprendeu com ele seguirá em sua vida.
E existe uma certa segurança para os fãs quando ela diz “But If I ever come out of hiding/ You won’t have to know how to find me again” de que Phoebe também fez as pazes com sua fama. Que agora ela controla como serão as coisas e que está tudo bem, ela não vai embora. Ainda.
E é assim que acaba o disco para quem ouvi-lo nos streamings, mas é claro que Phoebe ainda deixou uma surpresa para seus fãs nas cópias físicas do disco, com uma faixa-bônus. “Best Dressed” é um feat. com Isaac Wood, outro que saiu do buraco onde estava se escondendo para cantar com Bridgers. Inclusive ele fará a abertura de seus shows na Europa no fim deste ano.
A música extra parece uma canção de reflexão sobre o que poderia ter sido, um epílogo. Mais que claramente um presente para os fãs.
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* A foto de Phoebe Bridgers usada neste post é de Frank Ockenfels.