“Glastonbury é mais importante que o Natal” – Vivendo a Glasto Blues, um mês depois do maior festival do mundo – Parte 1

Está fazendo um mês que aconteceu o maior e mais ruidoso festival de música do planeta, o Glastonbury, na Inglaterra. Esta edição, do aniversário de 50 anos que era para ter acontecido em 2020 mas ficou represada por dois anos, por tudo isso foi especialíssima. Sem contar o costumeiro maior número de palcos e bandas e gentes reunidos em cinco dias de eterno alto-astral que o evento proporciona.

Mas o Glastonbury também sabe ser bem treta. Primeiro porque, veja bem, é cheio de inglês. E inglês em festival de música é muito bacana mas muito “perigoso” na mesma medida.

Depois que é quase impossível não ter que acampar pelos cinco, seis dias que ele ocupa na agenda de um ser humano que se programa para ir. Se é que alguém dorme. Ou toma banho decente. Ou come…

Tudo isso depois da tarefa hercúlea que é conseguir um ingresso para ir ao Glasto. E olha que são 200 mil ingressos à disposição (por poucos minutos).

A “inglesa” Marjorie Niele, amiga brasileira da Popload no Reino Unido, foi a este Glastonbury tão especial. Pedimos para ela um relato de como é botar o Glasto em sua vida, do momento em que, meses antes de ele acontecer, vai-se atrás de uma entrada até a hora de chegar em casa de volta da guer… da experiência, depois de viver quase uma semana dentro daquela certa “fazenda mágica” no vilarejo de Piton, no condado de Somerset.

Como é a epopeia de “viver o Glastonbury”, a Marjorie conta para nóis! E mostra, porque todas as imagens são dela.

*** Por Marjorie Niele

Foi num domingo de 2019 que eu e meus amigos conseguimos ingressos para o Glastonbury que deveria ter acontecido em 2020 – a tão esperada edição de 50 anos do festival inglês. No nosso grupo de Whatsapp, temos uma planilha que nunca falha – com nome, número de registro, CEP. Quando o relógio bate 9 da manhã do domingo, ansiedade a mil, o site para comprar os ingressos está fora do ar…

No momento em que a pandemia veio, parte de mim não via uma forma de o Glastonbury acontecer. Afinal, o festival é muito mais do que um “acontecimento musical”, por onde quer que se olhe. Para resumir, é o maior evento do ramo.

Não visa lucros, doa milhões todos os anos para ONGs e causas sociais. O que me levou, como a muitos, a estar disposta a doar o valor integral do meu ingresso pandêmico para assegurar a sobrevivência do festival durante seu hiato forçado de dois anos.

Mas, enfim, a edição de 2022 finalmente chegou: ansiedade para conferir o line-up, updates diários no grupinho no zap com rumores de quem iria tocar de surpresa, o famoso “Glasto Rumour Mill”. Mas, como uma medida para se recuperar financeiramente, neste ano o Glasto colocou à venda 50 mil bilhetes a mais do que o esperado – o que fez de idas simples ao banheiro ou ao bar um verdadeiro caos.

(Um parênteses aqui: esse meu grupo de amigos é formado por 33 ingleses, um escocês e, por fim, essa brasileira que vos escreve. Todos os integrantes na casa dos 30 anos. Voltando…)

Enfim, depois de dois anos esperando ansiosa para retornar à Worthy Farm, segue abaixo as minhas impressões (detalhadas) da terceira e melhor edição a que eu já fui, a começar pelo primeiro dia.

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Um pouco antes de tudo começar, uma vibe meio anos 70 pairava no ar devido à greve dos metroviários que decidiram protestar durante o festival. Sem outra opção de como chegar até o local, nos antecipamos duas horas para estar na Paddington Station a tempo de não nos atrasarmos. Depois de dois trens cancelados e um tanto de espera, enfim embarcamos.

Fomos um dos sortudos que conseguiram comprar uma tipi (tenda) para dividir entre nós – eu sempre fico acampado no Park Stage, perto do ‘Rabbit Hole’, pois as chances de você cruzar com a Alexa Chung num lookinho perfeito ou ver a Brooklyn Beckham curtindo uma trip de ácido são grandes. 

No trem do Castle Cry, a última “cidade” antes de se embrenhar para o local do festival, abro minha primeira cidra quente do dia (nenhuma bebida representa o Glasto mais do que isso) e sigo meu rumo. Uma das coisas que eu mais aprecio no Glastonbury é o fato de o festival nunca ter mudado tanto ao longo dos anos: o valor do ingresso ainda é relativamente acessível, não há limites de quantas bebidas você pode levar, desde que sejam garrafas de plástico etc. 

Sobre o que levar para beber, minhas escolhas foram: 1 bag de vinho tinto, 14 latas de G&T, 5 garrafinhas de gin (compramos a tônica gelada no bar), 1 garrafa de rum com cerveja de gengibre e, claro, cidra: 1 bag de Perry (cidra com vinho branco) e 6 latas de cidras de frutas vermelhas Strongbow. 

Quando chegamos em Castle Cary, fomos direcionados ao shuttle bus para nos levar até o festival. Alguns amigos já estavam na fila desde o dia anteior e guardaram nosso lugar. Entre as novidades, nesta edição você podia usar o aplicativo “Three Words” para conseguir encontrar o acampamento e nos localizar quando não podíamos avistar as bandeiras.

Quando finalmente eu pude ver o local do Glastonbury, lágrimas escorreram do meu rosto. Calorzão, mais caminhada, e sem revista na entrada (é sempre uma loteria isso), começamos a tortuosa caminhada do “Portal Amarelo” até a nossa tenda. Sol estralando, uma multidão marchando e segurando suas latas de cidra, mais cinco paradas e uma troca de sapato, e chegamos.

Assim que pisamos no camping, já enchemos nosso colchão inflável, deixamos nossas mochilas de lado e corremos para a área Shangri La (um dos locais mais agitados do festival, com fila para tudo). Voamos para assistir a New York Brass Band, frozen margaritas em mãos (custam mais que um rim), todo mundo feliz curtindo e cantando uns clássicos. 

Eu tendo a pegar leve no primeiro dia, mas a caminho do Rum Shack um dos meus amigos me deu uma cápsula de cogumelo, o que geralmente eu recusaria, mas ao me deparar com um colega imitando um dinossauro, pingando suor, eu então aceito e digo uma das frases mais ouvidas durante todo o Glastonbury: “Go on then!”

E assim, durante a próxima hora, caminhamos por Shangri La bebendo nossas latas e assistindo uma banda de folk. Nessa hora, eu ouso e tento entrar no espaço conhecido como “NYC Downlow”, mas pelo terceiro ano sou recusada. Desesperadamente eu tento encontrar uma das únicas formas de adentrar ao local: bigodes postiços distribuídos para “insiders” ou pessoas com a pulseira de determinada cor.

Ok, não foi dessa vez de novo. Decido me guardar para o resto do festival, volto para a minha tenda e fico olhando para o teto até eu parar de rir ou até o efeito do cogumelo passar. Fim do primeiro dia.

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Postado por Lúcio Ribeiro   dia 22/07/2022
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