
Em agosto do ano passado, mais uma banda atravessava a icônica faixa de pedestres da rua Abbey Road, em Londres, carregada de seus instrumentos e com a motivação de gravar um disco num dos estúdios mais conhecidos da história da música.

Como Beatles, Pink Floyd, Oasis e tantos outros antes deles, os sete membros dessa certa banda se juntaram por três dias no sagrado lugar famoso com o intuito de registrar as músicas que levaram consigo desde a capital moldada pelo rio Tietê até a cidade cortada pelo rio Tâmisa.
A tal banda, no caso, era a paulistana Tietê, da nossa CENA, com sua música intimamente brasileira, pautada em percussões e ritmos, e que acaba de lançar seu novo álbum, exatamente chamado “Tâmisa”, um resultado dessa viagem. Viagem em todos os sentidos.

A Tietê começou como uma forma para os amigos Fela Zocchio, Théo Cardoso e Rubi explorarem caminhos musicais depois das aulas. E aos poucos foram encontrando mais amigos interessados, principalmente nos festivais de música das escolas da Zona Oeste paulistana, que são um tipo de maternidade para bandas locais desde a época dos Titãs.
Eventualmente a Tietê foi tornando-se um projeto maior, fluindo e crescendo como um rio, para assumir a formação atual com seus sete membros.
Em seu disco de estreia, “Buraco na Parede” (2023), o grupo consolidou sua expressão sonora, com um foco muito particular nos ritmos, percussões e instrumentos de sopro, contando com trombone, sax e clarinete para ecoar suas composições.
No ano seguinte, o próximo passo não estava claro para a Tietê. Foi aí que veio um convite do destino.
O produtor Dan Parties, amigo de infância da saxofonista e vocalista Dodó Moreau, estava para se formar como engenheiro de áudio em Londres e tinha que gravar um projeto para seu TCC. E em março de 2025 foi feito o convite para a Tietê gravar no Abbey Road Studios.
Não foi uma questão de sim ou não, mas de como. De que jeito levantar todo um disco em alguns meses para gravar num curtíssimo espaço de tempo e aproveitar tudo que esse estúdio histórico tinha para oferecer.

Rubi, vocalista, percussionista e baterista da banda, falou como o grupo se sentiu nesta experiência. “Muitas das nossas músicas nasceram a partir da percussão. Uma das coisas mais ancestrais que existe é a pulsação. Como a gente estava com o tempo contado, com uma pressão, a nossa pulsação tendeu a bater mais junto, a todo mundo bater mais junto. As coisas fluíram muito bem durante o processo de criação e gravação, pois conseguimos levantar todas as faixas com muita alegria.”

A ancestralidade estava presente tanto em Abbey Road, onde gravaram 80% do disco, quanto em São Paulo, onde tiveram uma participação muito especial para arrematar o álbum na pós-produção: Anelis Assumpção, na faixa “Deixar o Medo”.
Filha de Itamar, mãe de Rubi. No meio de um disco com essa história tão potente de onde foi gravado, como o “Tâmisa”, fica também eternizada toda uma linhagem da música paulistana em um som que fala sobre assumir o medo e seguir em frente, com o reggae, um dos fios condutores da banda, que reafirma essa questão dos ciclos e fluxos, e trazendo a língua inglesa para arrematar tudo.
Mesmo atravessando o Atlântico, o disco ainda era profundamente daqui. E, para fortalecer suas raízes, a banda escolheu a faixa “Menino e a Cobra”, com participação e co-produção de Iara Rennó, que aprofundou mais ainda essa conexão entre ancestralidade, transformação e escolha.
Cada faixa é um “Míni Mundo”, como definiu Leo de Freitas, responsável pelos teclados e coros na banda, em entrevista para a Popload. As músicas transitam entre o jazz moderno, rock clássico, reggae, música eletrônica e cumbia, mantendo o rock e o reggae como as linhas condutoras para seus processos criativos.

Assim, parece que cada canção é uma sala, uma fase da história, como aquelas que estão imbuídas nas paredes de Abbey Road, fluindo em um rio de pensamentos que captura o momento de vida dos 7 jovens membros da banda e criando uma fotografia deste momento, uma polaroid da CENA.
Em “Tâmisa”, a Tietê atravessou dois mundos, a sua realidade e um sonho, cruzando dois rios que nunca se encontrarão, criando um disco que eterniza esse momento. Um recorte da CENA em expansão global, como não?
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* As fotos desta matéria e da home são de Nandê Caetano.