Com St. Vincent, Viagra Boys e Amyl and the Sniffers como “colaboradores escondidos”, o rapper argentino Dillom solta álbum novo caótico e muito bom (talvez por isso). Ah, é um disco de rock (mais ou menos)!

O argentino Dillom, que começou a carreira basicamente como rapper e vem se transformando cada vez mais em uma “estrela de rock”, lançou seu terceiro álbum, La Nueva Violencia, na última sexta-feira, 12 de agosto, dando mais um passo firme nessa direção.

O interessante em Dillom é que ele parece mudar de gênero como se tivesse algo a provar a cada disco. Seu álbum de estreia, “Post-Mortem” (2021), o coroou como uma espécie de messias do trap pós-pandemia. Depois, o ótimo “Por Cesárea” (2024) deu uma guinada para o punk e a psicodelia em um disco conceitual que passava por incelismo (“celibatários involuntários”), masculinidade e polarização social.

Agora, a “metamorfose para o rock” parece praticamente completa. “La Nueva Violencia” reúne 13 faixas que passam por post-punk, electroclash e acid house, produzidas de forma independente por seu próprio selo, Bohemian Groove. Tudo com uma energia maximalista e suada que sugere alguém que passou os últimos tempos ouvindo LCD Soundsystem e Peaches em doses igualmente generosas.

Os vídeos de bastidores incluídos na versão digital do álbum ajudam a entender de onde veio essa sonoridade. A equipe e núcleo criativo do álbum, que inclui Bernardo Ferrón, Coghlan, Fermín Ugarte, Franco Dolzani e Samuel Shea, se isolou durante semanas em um casarão transformado em estúdio, trabalhando com equipamentos analógicos e técnicas pouco convencionais, privilegiando a espontaneidade em vez da perfeição técnica.

Já a lista de convidados é bizarra, no melhor sentido possível.

Começa por St. Vincent, que já vinha demonstrando uma relação próxima com o público latino-americano e certa curiosidade em atravessar a barreira do idioma depois de lançar, em 2024, “Todos Nacen Gritando”, versão em espanhol de “All Born Screaming”. Com Dillom, ela aparece primeiro com sua guitarra em “Cocodrillo” (veja o vídeo incrível, abaixo) e, mais tarde, empresta os vocais a “Palermo Hollywood”.

Sebastian Murphy, do Viagra Boys, que cruzou com Dillom no Lollapalooza Buenos Aires deste ano, leva sua habitual energia de sujeito à beira de alguma decisão também para duas músicas do disco: “Papá Se Volvió Loco” e “Fashion”.

Entre os outros convidados estão também Declan Mehrtens, do Amyl and the Sniffers, em “Amigos”, e o duo pop argentino Miranda!, em “Gente Común”.

O curioso é que nada disso aparece estampado na tracklist. A escolha parece reforçar uma recusa de Dillom à lógica em que créditos de featuring funcionam mais como ferramenta de marketing do que como resultado de uma cumplicidade artística mais genuína.

Algumas participações, inclusive, seguem sem crédito público, transformando o disco numa pequena caça ao tesouro para descobrir quem está tocando ou cantando o quê.

Outro destaque é a faixa “Vedette”, que não traz convidado especial, mas encontra Dillom num território dançante que lembra bastante as delícias da pista do Baxter Dury.

No fim, chamar “La Nueva Violencia” simplesmente de “disco de rock” é cair numa armadilha. Assim como Charli XCX fez em sua recente guinada para as guitarras, Dillom parece menos interessado em trocar um gênero por outro do que em usar o rock como mais uma ferramenta para bagunçar a própria linguagem.

O rap continua ali, assim como o punk e a eletrônica. Três discos depois, sua única constante talvez seja justamente essa inquietação. E uma autencidade assustadora.

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