Com St. Vincent, Viagra Boys e Amyl and the Sniffers como “colaboradores escondidos”, o rapper argentino Dillom solta álbum novo caótico e muito bom (talvez por isso). Ah, é um disco de rock (mais ou menos)!
POSTADO DIA 17/08/2026


Há poucas semanas, os medalhões do indie capitaneados por Julian Casablancas lançaram talvez seu disco mais controverso e diferente, o algo esquisito “Reality Awaits”. Parte da discussão em torno do álbum dizia que pouco daquilo lembrava os Strokes, ou, pelo menos, remetia à identidade forte que transformou a banda no que ela é hoje (ou o que foi um dia). Semanas depois, o agora trio inglês Jungle lança “Sunshine”, quase o oposto do recente trabalho da banda nova-iorquina: um disco que reúne e refina o que os britânicos fizeram até aqui, em vez de apresentar uma guinada de 180 graus.

“Sunshine” é o quinto álbum de estúdio do Jungle, antiga dupla e agora consolidado em um trio, já que a vocalista Lydia Kitto passou a integrar oficialmente o projeto depois de alguns bons anos dividindo palcos e gravações com J Lloyd e Tom McFarland.
A mudança de formação talvez seja uma das surpresas do disco, já que nele Lydia canta boa parte das músicas, enquanto que, sonoramente, o álbum segue a receita muito bem firmada pelos britânicos nos seus mais de dez anos de estrada e a serviço de um sempre delicioso balanço entre soul, hip hop, disco e música eletrônica, tudo vinculado a outras artes, principalmente à dança.
Definitivamente, o novo disco do trio não é um lançamento para causar grande alarde nos fãs com experimentações e reviravoltas muito grandes, mas que não deixa de apresentar novas camadas de tentativas do Jungle de expandir seu chiquérrimo repertório de grooves e riffs radiofônicos. “Someday, Somewhere” talvez seja uma das mais bem executadas – Já chegaremos lá.

Em tempos em que as novas gerações aderem ao celibato, fogem de novas experiências e até entendem errado a metáfora da “morte da pista de dança“, o Jungle traz uma perspectiva de que o calor, a dança, o momento, a redescoberta do amor podem ser uma das fugas mais importantes para se sentir o lado humano do outro em tempos tão digitalizados, competitivos, impessoais. Como disse Tom em entrevista para a “Elle Brasil”: “Ser imperfeito e inadequado é vital para progredir como pessoa“. E é nesse ponto que as letras do disco tocam.
“Come Back to Me” canta sobre um amor que parece ter ido embora, mas que a admiração, a nostalgia e a esperança ainda permanecem. “Sunshine”, faixa-título, escala esse sentimento e coloca ainda mais intensidade nessa história com “No matter whеre you go (I can’t stop loving you)“. No decorrer do disco, os diferentes eus líricos do disco parecem cair na real de que esse amor narrado nas primeiras faixas é na verdade algo que vai além de um amante, de uma pessoa. É algo mais amplo, é quase um “lugar”.
Por mais que as faixas narrem uma relação que começa com uma intensidade quase ingênua, no decorrer do disco a desilusão dá as caras e o sentimento vai tomando outras formas. Em “Romeo II”, continuação conceitual (mas não narrativa) de “Romeo”, faixa de “Loving in Stereo” (disco de 2021), o trio volta a se juntar ao rapper Bas. Desta vez, ele interpreta alguém que tenta convencer outra pessoa a ficar, sem encontrar necessariamente a reciprocidade que procura.
J Lloyd-Watson contou que o título surgiu quando Bas observou que a nova composição parecia mais “Romeo” do que a primeira. Entre as duas músicas, a principal ligação está na presença do rapper e na maneira como o Jungle incorpora o hip-hop aos seus grooves – não necessariamente na história das duas.
É em “The Wave” que o clima muda: não porque o eu lírico aceita o fim, mas quando tenta impedir que ele aconteça. Depois do desamparo de “Carry On”, a faixa recupera a esperança de que ainda seja possível atravessar a crise e voltar ao ponto de partida. Em “Someday, Somewhere”, a reconciliação deixa de ser urgente e passa a habitar um futuro imaginado: algum dia, em algum lugar, os caminhos talvez voltem a se cruzar.
A sequência de singles “Carry on”, “The Wave” e “Someday, Somewhere” cria um momento divertido dentro do disco, brincando com letras que falam de crises complexas, mas amarrando isso tudo em melodias que segurariam uma pista por bastante tempo. Talvez seja aí o ponto principal do que Jungle fez até aqui: falar de amor, de relações, de crises, problemas, voltas e reviravoltas, mas amarrar tudo isso em melodias de pista.
Sem promover grandes rupturas em “Sunshine”, o Jungle consegue mais uma vez envolver o ouvinte por pouco mais de 30 minutos em crises afetivas que dialogam com o presente. Sob a roupagem elegante, solar e dançante do trio, essas histórias podem ser dançadas, e não apenas ouvidas, por quem se dispuser a embarcar no quinto álbum dos ingleses.
A surpresa nem sempre precisa vir do excesso de auto-tune ou de guitarras que parecem samples. Às vezes, ela está na maneira como um sentimento conhecido pode ser contado, musicado e dançado de formas diferentes. Afinal, já são mais de dez anos sustentando a pista sem deixar ela esvaziar.
Para quem ainda acredita no amor na pista de dança, o Jungle retorna ao Brasil em 2027 para apresentar “Sunshine” ao vivo. Ingressos aqui. Depois de um dos bastantes elogiados shows do Lollapalooza de 2024, ainda na turnê de “Volcano“, o trio volta a São Paulo em 30 de março, no Espaço Unimed, desta vez com o novo lançamento.
Jungle é daquelas bandas que criam uma contagiante “energia boa” na plateia, em shows ao vivo, tipo LCD Soundsystem, Hot Chip, grupos assim. Aquela atmosfera que te faz querer ter amizade com todo mundo a sua volta. Sabe o amor a que nos referimos no título deste post? Então…
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* A foto usada neste post é de Mason Rose, de divulgação da banda para o novo disco.