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POSTADO DIA 04/08/2026

Tem discos que parecem querer impressionar. “Cores d’Água”, EP de estreia da mineira Gabriela Ozório, prefere envolver. Ao longo de seis faixas, a cantora constrói uma atmosfera que faz jus ao título: tudo ali parece seguir o movimento da água, sem pressa para chegar ao destino.

Natural de Belo Horizonte e radicada em Juiz de Fora, Gabriela apresenta um trabalho que dialoga com a nova geração da MPB sem abrir mão das raízes da música brasileira. Samba, ijexá e referências latino-americanas aparecem em guitarras, violões e bandolins, costurados por uma percussão orgânica que dá uma malemolência ao disco. Mais do que marcar o ritmo, os batuques conduzem as canções e fazem contraponto à delicadeza das cordas, dos pianos e da voz da cantora.
Essa sensação atravessa o EP inteiro. Há momentos contemplativos, outros que timidamente convidam à dança, mas todos parecem fazer parte de uma mesma paisagem sonora. É difícil ouvir “Cores d’Água” sem imaginar um universo aquático: a capa, os títulos das músicas e a interpretação madura de Gabriela evocam um imaginário quase onírico, como se aquelas canções fossem um canto de sereia transportado para a MPB contemporânea.
A correnteza ganha forma
Em “Vai e Vens“, uma das faixas que melhor sintetizam essa proposta, a melodia flutua sobre a percussão enquanto a voz permanece sempre serena. Em alguns momentos do EP, lembra a atmosfera de artistas como Vanessa da Mata.
As letras giram principalmente em torno dos afetos e das relações amorosas — escolha que conversa com o universo íntimo do disco. Em “Não Deu Conta“, porém, esse olhar se amplia quando ela canta: “Eu quero água, eu quero fogo, eu quero terra, eu quero vento/ Eu me acudo ao meu relento/ Eu me recolho em meu cantar”. Os versos sintetizam bem a proposta da obra: uma artista que transforma elementos da natureza e da própria sensibilidade em matéria para suas canções.
E, antes de chegar a esse primeiro trabalho, Gabriela passou pela dança, teatro e literatura, formou-se em Letras pela UFRJ e estudou na Bituca – Universidade de Música Popular, em Barbacena. Produzido ao lado de Bernardo Bara, da banda Varanda, “Cores d’Água” reúne músicos da cena de Juiz de Fora e de outras cidades mineiras.
Sem buscar grandes rupturas, Gabriela estreia encontrando algo talvez mais difícil: uma identidade. Entre violões, guitarras, pianos e uma percussão que nunca deixa a música perder o corpo, “Cores d’Água” apresenta uma compositora que já sabe qual o rumo da correnteza quer seguir.