Top 5 Shows – Mas pode chamar desta vez de Top 50 Shows. Semana bombástica puxada por Rosalía, Kaytranada, os 26 da SPIM, os enormes do Movimento da Cidade e muitos e muitos outros
POSTADO DIA 11/08/2026

Não é novidade nenhuma que Rosalía tem passado os últimos tempos fazendo altos rolês pelo Rio de Janeiro, aparecendo em praias, bares e pontos turísticos, mas só agora finalmente estreou um show na cidade. E logo com “Lux”, um disco completamente fascinado por símbolos religiosos, pecado e devoção, desembarcando justamente na cidade cujo principal cartão-postal é um Cristo Redentor de braços abertos. Aqui poderia ser facilmente um roteiro escrito por alguém da equipe criativa dela.
A Lux Tour é, antes de qualquer coisa, um espetáculo de direção artística, um museu vivo. Teatro e dança no talo. Após tocar “Angel”, de Jimi Hendrix, Rosa surge imóvel sobre um pedestal, vestida como uma bailarina clássica, numa referência quase literal à “Pequena Bailarina de Catorze Anos”, de Degas.
Daí em diante, o show passeia por Goya, pinturas renascentistas, confessionários, incensários (inclusive um gigante que sobrevoa sobre a platéia da pista), crucifixos e uma fotografia que transforma tudo em um desfile de alta-costura, mas celestial.

Do lado de fora do palco, mesmo com um trajeto para a Farmasi Arena tomado por pancadas de chuva e em plena segunda-feira, a plateia também parecia ter entendido o convite. O branco dominava o lugar , refletindo a identidade visual da era: véus, rendas, pérolas espalhadas pelos pescoços, capuzes de freira reinventados como acessório fashion e, é claro, inúmeras versões da clássica camiseta do Barcelona em edição “Motomami”.
Se praticamente todo grande artista pop incorporou uma “kiss cam” aos shows, Rosalía responde com uma deliciosa “art cam”. O público deixa de beijar desconhecidos para reproduzir poses de pinturas famosas.
Em poucos minutos, o “escolhido da câmera” tenta recriar, por exemplo, “O Grito”, de Edvard Munch, antes de gargalhar ao imitar a expressão involuntariamente icônica do restaurado “Ecce Homo”, de Borja, provavelmente a única obra-de-arte cuja fama nasceu justamente de uma restauração desastrosa. É um daqueles momentos que sintetizam perfeitamente a personalidade de Rosalía: alta cultura e meme convivendo sem qualquer hierarquia.
O mesmo vale para o confessionário que antecede o hit “La Perla”. Em vez de um trecho excessivamente solene, a cantora transforma o ritual em um dos momentos mais leves da noite. A convidada da vez foi Marina Sena, cuja admiração mútua com Rosalía já vinha sendo alimentada pelas redes sociais nos últimos anos. A conversa, ou melhor, a confissão sobre um ex-relacionamento de Marina com um produtor musical, que sugeriu uma relação aberta e se arrependeu, rendeu risadas, improvisos e serviu como um respiro antes de o espetáculo mergulhar novamente na intensidade emocional que domina “Lux”.

O repertório em si privilegia o disco, lançado em 2025. Algumas músicas de “Motomami” aparecem para aliviar a tensão, como a própria cantora brinca: “Não queria trazer só músicas para vocês chorarem”. Mas, curiosamente, elas quase parecem dispensáveis. Não por serem fracas. Pelo contrário. É apenas que “Lux” sustenta uma narrativa tão consistente que interrompê-la às vezes soa como abrir uma janela durante uma sala cuidadosamente iluminada.
Os maiores momentos do show pertencem justamente ao material novo. “Divinize” transforma o sample de “Thank You”, de Dido, em algo inesperadamente transcendental, numa lembrança nostálgica direto dos anos 2000. Já “La Yugular”, incorporando versos em árabe, traz Rosalia num dos momentos mais cinematográficos da noite, deitada numa escada num cenário que neva. O gran finale fica por conta de “Magnólias”, encerrada num silêncio que vale mais do que qualquer explosão de fogos de artifício.

O que impressiona, porém, não é apenas a execução impecável ou a quantidade de referências visuais espalhadas pela apresentação. É perceber como tudo isso parece inevitável dentro da trajetória de Rosalía.
Pouquíssimos artistas conseguem reunir pop, flamenco, reggaeton, música clássica, dança contemporânea, pintura renascentista e performance teatral sem que a mistura pareça uma colagem de aleatoriedades conceituais para impressionar.
A segunda noite acontece hoje no Farmasi Arena, com poucos ingressos ainda disponíveis. A previsão indica mais uma noite de chuva. Resta saber se São Pedro pretende repetir a participação especial.