Top 50 da CENA – Ludovic vive no nosso primeiro lugar. Rashid chama Projota e Emicida para uma terapia. Anitta mexe com um clássico escroto e com a internet. Semana tá boa!

O Ludovic morreu, mas passa bem. E está de volta. Rashid, Emicida e Projota também retornaram em trio para celebrar uma amizade de décadas. O que ninguém esperava era a volta de ratos, baratas e pulgas em um som polêmico que mexeu com a internet. A gente conta essas histórias.

“Cuidado com o que você diz para si mesmo.” Ou “Minha loucura e minha sensatez se tornaram quase iguais”. Escolha seu verso favorito. São muitas as possibilidades na demolidora faixa de abertura do novo álbum do Ludovic. Autointitulado, o terceiro disco da banda é o retorno após 20 anos de silêncio – “Idioma Morto” é de 2006. Silêncio relativo, rolaram shows de reunião neste meio tempo que azeitaram o quarteto. Eles nunca soaram tão bem em disco quanto soam agora. Outra novidade é a presença dos guitarristas Eduardo Praça e Zeek Underwood no apoio a Jair Naves para a criação das músicas. Um espaço que pode ter deixado a caneta de Naves ainda mais afiada, como na crítica ao capitalismo em “Dilúvio de Dinheiro”. “Será que só еu to vendo/ Nuvens carregadas até mim dеscendo/ Será que só eu sinto tédio?” são bons versos para vociferar contra um mundo tão cansado de si mesmo por mesquinharia, por margens de lucro que não salvarão ninguém.

O trio Rashid, Projeto e Emicida já esteve afastado depois de andarem por muito tempo juntos e até terem um projeto para chamar de seu: Os Três Temores. O tempo curou as mágoas e depois do reencontro em “A Mema Praça” em “Emicida Racional VL2”, o trio se reapresenta no novo álbum do Rashid, “CUMULONIMBUS”. Diferente da track relatando a visão dos três sobre a apresentação dos Racionais que terminou em confusão, essa é uma terapia em grupo aberta ao público. Aquele momento onde as amizades se reúnem para lembrar o sentido de estar juntos. Ou como versou outro poeta: “O que será será, é nós vamo até o final”.

Apesar de todo o marketing envolvendo dois álbuns cheios de boas ideias, Anitta viralizou mesmo com uma cover de Titãs tão malfeita que as pessoas acharam que era música de IA simulando Anitta. Terror. A música é real e trilha o terrível filme “Corrida dos Bichos”, que ainda não tivemos coragem de ver. Sobrou para ela e para os Titãs; a geração Z ficou em choque com a simplicidade da letra de aura punk no clássico de 1986. Daquelas confusões que rendem mil debates na internet. E pensar que o “Cabeça Dinossauro”, lançado há 40 anos, foi o álbum que salvou a popularidade dos Titãs e tinha em “Bichos Escrotos” uma faixa com execução pública proibida pela censura. De censurada a piada, a vida da canção é cheia de voltas. Ironia, os Titãs estão rindo do meme na internet. Já Anitta e Tropkillaz não aparecem para defender a “obra”.

E aí? Que letrista vai querer competir com Machado de Assis? São dele os versos que Joyce declama no improviso do trio que armou com o marido, Tutty Moreno, e com o norte-americano (quase brasileiro) Adrian Younge. De improviso, eles registraram oito composições inéditas que aparecem na vigésima sétima edição do projeto Jazz Is Dead. No último instrumental, esse presente em forma de música do trio e verso do maior dos maiores.

Sabe aquelas canções românticas e pop perfeitas do Guilherme Arantes? O trio Colomy, formado por Sebastião Reis, Pedro Lipa e Eduardo Schuler, escreveu uma dessas e teve a manha de chamar o próprio Guilherme Arantes para dar o brilho correto no piano elétrico. Se esta “Se Ainda Existe Amor” não tocar no rádio, é sacanagem demais.

Lulina e sua capacidade de sintetizar em versos sensações nossas ainda não verbalizadas. “Tava à toda fazendo tudo/ Quando me ocorreu/ Que a vida toda tinha passado/ Que o tempo morreu”. Caramba. Esse deslocamento, o tempo perdido que bate, a ficha que cai quando notamos a urgência de viver imediatamente e reencontrar a gente. Nossos cacarecos pelo chão. Além da boa dose de luz nos versos, “Cobra com Asas” ainda apresenta Lulina se arriscando em um amapiano conduzido pela produção de Guilherme Kastrup. Mais um som para a infinita playlist “Penso, Logo Danço”. A faixa é o segundo single de “Sinuosa”, próximo álbum da artista pernambucana. O primeiro foi “Outras Vezes”, com participação de Ana Frango Elétrico.

O play em “Álbum Vermelho”, estreia da artista mineira Julia Guedes, soa fora de seu tempo não porque sua música seja anacrônica, longe disso, muito longe, mas talvez por um detalhe que passe batido sem a informação: o material foi registrado muitas vezes de primeira, sem retoques digitais de edição. É isso que está fora do lugar aqui. Julia abre mão do volume e perfeição por puro feeling. Essa energia orgânica que vai arrastar os ouvintes do começo ao fim de forma encantada – foram apenas dez dias de gravações, imagine! Sua associação familiar com o Clube da Esquina aparece no bom gosto para os timbres e contornos líricos, basta ver a tapeçaria cuidadosamente montada que é esta “Notas de Avião”, de uma delicadeza rara.

Ainda na preparação para o novo álbum, “Continental”, o Black Pantera recupera em “Hórus” o verso de Tupac: “Todos os olhos em mim”. De maneira cruzada, a letra vai abordar quanto o racismo condiciona a viver em estado de alerta (Em todo recinto que eu entro/ O segurança, mesmo negro, me vigia/ Todos os passos, todos os atos/ O peso dos meus erros é multiplicado), efeitos que alcançam até a fé com o sincretismo, uma forma encontrada para proteger a religiosidade de matriz africana do ataque colonial. Bem interessante isso.

Uma radiografia da cabeça de Mário Bross, vocalista e guitarrista do Wry, ilustra a capa do single “Sob os Olhos da Multidão”. Mais íntimo que isso é difícil, mas a música também tem uma honestidade cortante. “É uma aceitação brutal de ser leal consigo mesmo, mesmo que isso traga algum tipo de ruptura”, escreve Mário. A maturidade caiu bem demais para o Wry, que depois de uma longa jornada cantando em inglês, e por muito tempo vivendo lá fora também, entrega em breve seu segundo disco todo em português. Já era legal e só melhorou, especialmente por eles não abaixarem o som da guitarra para cantar na língua de sua terra natal.

“ALFA”, novo álbum do Major RD, é seu trabalho mais ambicioso até aqui. O rapper carioca resolveu tocar em temas sérios, da paternidade a solidão, chegou no sample do Cartola e vestiu o manto de Nossa Senhora da Aparecida na capa. Mas o amadurecimento e responsabilidade não tiraram do álbum momentos, digamos, inusitados. Tipo uma homenagem ao baterista Eloy Casagrande, ex-Sepultura e atualmente no Slipknot, um rock que abre com o seguinte verso: “Batendo na bunda dela, tipo Eloy Casagrande”… Soa até fora do lugar, e Major admite isso, mas os fãs aguardavam por essa desde que ele entregou ela no Tik Tok. A seriedade não te livra do bate-cabeça.

11 – Mauricio Pereira – “Uma Vida Standard” (2)
12 – Maglore – “Sonho Real/Raio de Sol” (2)
13 – Marina Mole – “Slowdancing” (2)
14 – Raquel Dimantas – “Mira Que Belo Dia” (2)
15 – Gui Hope – “Eu Sei”  (2)
16 – Pabllo Vittar – “Rockstar” (3)
17 – Rodrigo Vellozo – “Samba do Profeta (com Rodrigo Campos, Thiago França e Fumaça)” (3)
18 – Bruno Berle – “Você Já Sabe Que Eu Te Amo” (5)
19 – SEXCORP. – “Até Quando” (5)
20 – Rincon Sapiência – “Homem Gol” com Marissol Mwaba e Péricles (6)
21 – Liniker – “Melhor Notícia” (6)
22 – Linn da Quebrada – “Nuvem Negra” com Fernando Catatau (7)
23 – Ema Stoned e Edgard Scandurra – “Conza das Horas” (7)
24 – Teresa Cristina – “Quando a Onda Passar” (8)
25 – Lô Borges – “Última Parada”/”Chegada” (9)
26 – Thiago Jamelão – “Apaixonado” (9)
27 – Alice David – “Terra Sem Rei” (9)
28 – Ítallo – “Nina do Avon” (10)
29 – João Carvalho – “Serra do Caraça/Itaúnas (Para Milton)” (10)
30 – Luedji Luna – “Ela É o Que Há (com Jadsa)” (11)
31 – Michelle Abu – “Talvez Amor” (11)
32 – Bebé – “Meu Peito” (11)
33 – Exclusive Os Cabides – “Castelos de Areia” (12)
34 – Tangolo Mangos – “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça” (13)
35 – Marina Liori –  “Água na Boca (com Tori)” (13)
36 – Juçara Marçal e Thais Nicodemo – “Cavaquinho” (14)
37 – Marcelo Cabral – “Grito” (17)
38 – Marabu – “Manda Beijo” (17)
39 – Buhr – “Voaria” (17)
40 – Novíssimo Edgar – “Zum Zum Zum” (18)
41 – Silva – “ROLIDEI” (18)
42 – Febem, Fleezus & CESRV – “M.P.B” (19)
43 – Rael – “Forma Abstrata” (19) 
44 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (20)
45 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa)” (20)  
46 – Schlop – “Clássicos” (20)
47 – Seu Jorge – “River Man (com Beck)” (20)
48 – Kuczynski – “Music 4 a Strip Club” (20)
49 – Ottopapi – “Meus Podres” (21)
50 – Mombojó – “Abaixo a Realidade (com Letrux” (21)

***

* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, a banda paulistana Ludovic, sob foto de Tauana Sofia.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.

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