CENA VIVA – Sara Não Tem Nome leva fantasmas, cachorros e amigos para temporada no Centro da Terra (SP)
POSTADO DIA 10/08/2026


Existe uma tendência que atravessa boa parte da música brasileira contemporânea — especialmente no rock alternativo —, a de esconder o sentimento atrás da ironia. Como se demonstrar afeto, sofrer por amor ou admitir fragilidade fosse cafona demais para caber em uma canção. O segundo disco da banda Colomy escolhe justamente o caminho oposto.

Em “Pra Quem Andou Perdido”, o trio formado em São Paulo por Sebastião Reis e os gaúchos Pedro Lipa e Eduardo Schuler não parece preocupado em manter a pose: as nove faixas do álbum falam de despedidas, saudade, culpa, esperança e reconstrução sem recorrer ao cinismo. São músicas que aceitam a vulnerabilidade como ponto de partida — e talvez seja justamente isso que as torne tão fáceis de se identificar com.
“Todas as canções do disco são baseadas em fatos reais. O personagem do álbum somos nós três”, conta Sebastião Reis à Popload. “Naquele momento [de construção do disco] nós estávamos muito mal emocionalmente. Não existia outra coisa sobre a qual escrever. Qualquer outro assunto seria uma mentira.”
A amizade virou “bússola”
Essa sinceridade também ajuda a explicar outro aspecto da banda: a amizade. Mais do que colegas de trabalho, os três se enxergam como um grupo que atravessou junto um período de mudanças profundas. Entre 2023 e 2024, relacionamentos terminaram, certezas desapareceram e foi justamente a Colomy que virou ponto de apoio.
“A banda acabou sendo a nossa bússola”, compartilha Sebastião ao explicar o título do álbum. Eduardo completa: “Muitas vezes, para a gente se encontrar, precisa primeiro se perder. Foi exatamente isso que aconteceu conosco.”
A cumplicidade aparece de forma inevitável no som. O trio se conheceu em estúdio, mas Pedro Lipa e Eduardo Schuler são amigos desde a infância, no Rio Grande do Sul. Sebastião entrou depois, mas costuma dizer que a banda nunca existiu por reunir bons instrumentistas — ela existe porque eles escolheram fazer música entre amigos.

Em “Causas Naturais”, guitarras solares e um balanço que flerta com o yacht rock e o pop brasileiro dos anos 1970 fazem contraponto a versos sobre saudade. É uma música luminosa sem deixar de carregar melancolia, lembra um fim de tarde invernal. Já “Nunca Se Esqueça de Amar” cresce aos poucos, quase como uma trilha de filme, enquanto “Rádio”, uma das mais bonitas do álbum, transforma os objetos deixados em uma casa em testemunhas silenciosas da ausência.
Após um disco de estreia pandêmico, a banda surge mais madura, não só musicalmente mas também pessoalmente. “No primeiro álbum estávamos na faixa dos 25 anos. Agora estamos chegando aos 30. Parece pouco tempo, mas é um período em que muita coisa muda”, conta Eduardo. O resultado, segundo ele, foi encontrar uma identidade que até então ainda estava sendo construída.
E as participações das estrelas Guilherme Arantes, Peter Buck (R.E.M.) e Barrett Martin (Screaming Trees e Mad Season) ampliam o universo, mas, curiosamente, o maior aprendizado que a banda diz ter levado desses encontros não foi musical. Foi humano. “Você vê músicos com uma história gigantesca sendo extremamente humildes. Isso ensina muito”, diz Sebastião.
No fim das contas, “Pra Quem Andou Perdido” não impressiona apenas pelas melodias bonitas, arranjos bem trabalhados ou pelos convidados. O que faz o disco permanecer na mente do ouvinte é outra coisa: a disposição de falar sobre afeto sem recorrer à armadura da ironia. Em um momento em que boa parte da CENA parece preferir a distância emocional, a Colomy se mostra ao mundo.
Escute “Causas Naturais”!