Lollapalooza no sofá: confira a partir desta quinta shows de Charli XCX, The xx, Turnstile, Wet Leg, Geese e muito mais, ao vivo de Chicago
POSTADO DIA 30/07/2026
Vai ser difícil nos livrarmos dos discos da Charli XCX e dos Strokes nestas semanas, mas vamos lá. Tem um mundo de outra coisa acontecendo, porque a música não para de qualquer modo que você a enxergue (e a ouça). E aqui, pelo menos baseado no que trazemos de novidade nesta semana, os britânicos chegam pesado, com as estripulias do Fat Dog, a esquisitice normalíssima do Nirosta Steel e a voz única da Sienna Spiro. Só vamos!

O veterano Nirosta Steel, codinome do músico escocês Steven Hall, acaba de soltar seu aguardado disco “My Skyscraper”. Bota aguardado nisso. O álbum levou 40 anos para ficar pronto, e virou uma verdadeira antologia que condensa mais de quatro décadas de experimentações musicais. Para abrir esse registro monumental, ele escolheu esta certeira “English Party”, faixa que carrega uma daquelas histórias de bastidores que a gente adora. Ela foi composta originalmente em Bangkok e pensada como uma demo para a Madonna nos anos 80. A Rainha do Pop nunca deve ter nem tomado conhecimento que esta música existia, mas o mundo agradece. O som traz uma linha de guitarra hipnótica do músico tailandês Tor Thani. A produção flerta diretamente com o espírito dance-punk e a disco minimalista do clássico circuito underground de Nova York. É pop torto de altíssimo nível. Lembra muito os trabalhos de seu eterno parceiro e mentor, um tal de Arthur Russell.
Do discaço novo da britânica Charli XCX, “Music, Fashion, Film”, lançado na semana passada, uma das faixas chamou uma atenção que ela não tinha, mas um “acidente” acabou mudando tudo. É a última canção do disco, “No One Lasts Forever”, conhecida em duas versões. A da quem tem o CD e a ouviu nos streamins, e esta conta com a ilustríssima presença do cineasta David Cronenberg, e a dos que têm o disco em vinil, sem o famoso filmmaker. A gente tratou do assunto aqui. A música não saiu no vinil porque o áudio de Cronenberg não teria chegado a tempo de ser incluído, então na hora de mandar o disco à fábrica, foi sem. Para fazer uma firula de mais de dois minutos sem o spoken-word de Cronenberg, Charli aplicou na track um artifício chamado “locked groove”, que mexe no suldo do vinil e trava a agulha no trecho, provocando um looping eterno, fazendo a canção, ao contrário do seu nome, “durar para sempre”. Gênia. Ah, se a música é boa? Maravilhosa. Com o Cronenberg e sem.
Esqueça a atriz Sienna Miller. A nova queridinha do pop britânico atende pelo nome Sienna Spiro, saiu do TikTok e foi diretamente para os grandes palcos e para o radar da revista “Variety”, que logo pediu para todo mundo esquecer a Adele que um novo vozeirão havia chegado à música. Spiro lançou por estes dias seu aguardado álbum de estreia, “Visitor”, carregando aquela responsabilidade gigante de ser próxima grande voz do soul britânico. Considerada uma das joias de seu álbum debut, esta emocionante “Great Expectation” (que todo mundo anda chamando no plural, “Great Expectations”), aqui numa versão especial de session para o Spotify, é uma balada dolorida inspirada em suas andanças solitárias por Nova York esperando por um amor que nunca apareceu. Intensa ou exaustiva, a voz de Sienna Spiro pede a você uma posição. Vai com ela ou não?
Se você achava que o indie inglês estava comportado demais, os caras do Fat Dog estão música à música te mostrando que a bagunça indie chegou, numa espécie de Prodigy-encontra-LCD Soundsystem-na-era-Idles. Estamos aqui avisando isso há algum tempinho. Esta “Shit Love” antecipa o segundo álbum deles, “Cancel Me (I’m Tired)”, e é um absurdo eletro-punk-rave que parece uma montanha-russa prestes a descarrilar. Sabe aquela fórmula clássica do sul de Londres de misturar crueza com batida eletrônica torta? Aqui não tem sutileza. Especialmente ao vivo. O frontman Joe Love descreveu a música como a trilha sonora para “duas pessoas completamente insanas que discutem constantemente”, e é exatamente essa a sensação: um techno-industrial claustrofóbico, cheio de sintetizadores cortantes e vocais maníacos que vão fritar a sua pista de dança indie favorita. Você tem uma, né?
Confessa. Esta é a melhor música do tão-falado disco novo dos Strokes, diz que não? Se você achava que os nova-iorquinos iam passar a vida inteira replicando as sujas guitarras limpas de 2001, é aqui que eles provam o contrário. No mínimo, é um dos momentos mais “intrigantes” do recém-lançado álbum “Reality Awaits”. Em que você enxerga a descarada mão produtora do Rick Rubin. A faixa de cinco minutos começa com uma malemolência crua que remete direto ao balanço clássico dos Rolling Stones, mas logo se perde em um labirinto pós-punk oitentista. Julian Casablancas brinca de “disco-Dracula” nos vocais carregados de efeitos, cuspindo os costumeiros versos fragmentados dele, aqui sobre desilusão política e colapso social. Quando você vê, já está cantando em uníssino com ele: “I’m a leech, I’m a leech”.
A poeta brasileira Bruna Beber decifrou os relacionamentos em “Romance em Doze Linhas”. “Now We Can’t Be Friends”, mais um single do álbum conceitual do Bloc Party sobre um relacionamento específico, “Anatomy of a Brief Romance”, coincide com a décima linha de Beber: “Quanto tempo falta para a gente se ver e fingir que não se viu”. Tem até um verso quase coincidindo, quando Kele Okereke pede “Quando eu te vir por aí, me perdoe se eu não conseguir falar com você”. Tristeza demais nesse coração.
Lou Barlow, baixista do Dinosaur Jr., é um fã de Neil Young e isso está dito em suas músicas ou até nas versões que já fez para canções do seu mestre. Mas a nova do Dinosaur Jr. parece ser seu momento mais youngniano ao esbravejar contra todos os mentirosos de extrema-direita que pertubam a vida de geral todo santo dia: “Você é do tipo mais burro que existe/ E conta histórias idiotas todo dia/ Alguém que te ama deveria falar/ E te dizer para cuidar da sua própria vida antes de mexer com a minha”. Tá certo, Lou. Estamos de saco cheio desse atraso.
Outro trabalho com energia política alta é de Thao. A artista norte-americana está produzindo seu primeiro disco solo desde o fim do projeto Thao & the Get Down Stay Down e disse estar cansada de mascarar suas dores. Não por acaso, o nome do álbum será “Show Me”. Pela primeira vez na carreira, ela diz ter escrito canções sobre sexo ou sobre sua identidade queer. A parceria com as jovens do Linda Lindas é um manifesto para recuperar laços com pessoas que você tinha como perdidas. Nos tempos duros, é hora de formar a maioria dos que desejam o bem.
Difícil não ouvir o novo dos ingleses do Yard Act e não pensar em Talking Heads. Tem algo no jeitão de James Smith cantar que lembra muito David Byrne. Outro ponto de contato é a forma mais figurativa de tocar em assuntos delicados politicamente. “Fiction”, por exemplo, fricciona a ideia de certeza absoluta que algumas pessoas carregam para si. Smith tem uma postura mais crítica quanto a isso, algo mais na linha Racionais, “Em qual mentira eu vou acreditar?”. Porém, em sua pensata, acaba vendo importância em acreditar em algo para não pirar. Tudo isso enquanto a banda se mostra mais confiante do que nunca em soltar o braço musicalmente. O desafio do terceiro álbum que já derrubou muitas bandas foi vencido aqui.
É o de sempre. Quando achamos que nada mais virá do baú dos Beatles, pimba! A reedição de “Rubber Soul”, provavelmente inaugurando de trás para frente uma revisão do catálogo da banda inglesa que ainda não tem edição especial (1963 até 1965), trará 20 takes iniciais e três demos de músicas. O primeiro gostinho já é de emocionar. O take 1 de “Michelle”, ainda sem baixo, sem solos, dá a dimensão da preciosidade da composição em seu mínimo. A versão mais limpa e inicial também permite uma apreciação melhor da harmonia vocal, superbaixinha na mixagem final original. Aqui a gente entende melhor por que o Brian Wilson ficou de cara com eles e foi escrever o “Pet Sounds”…
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* Na vinheta do Top 10, o músico escocês Nirosta Steel.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.