“Music, Film, Polêmica”. O misterioso caso da última faixa do disco da Charli XCX, que tem o David Cronenberg. E a versão que NÃO tem o cineasta, mas dura para sempre. Hein?

Charli XCX acaba de redefinir o conceito de “problema técnico virando obra de arte”. Em muitas prensagens do vinil, a última faixa de seu badalado novo álbum, “Music, Fashion, Film”, lançado na última sexta-feira, deveria ser um dos ápices desse oitavo disco da diva: uma colaboração inédita, sombria e eletrônica com ninguém menos que o mestre do body horror, o cineasta David Cronenberg (na foto acima, os dois nos bastidores da gravação do disco).

A música, ótima construção hyperpop que na sonoridade inicial parece um radinho de pilha com uma estação mal sintonizada, se chama “No One Lasts Forever”, guarde esse nome. Nela, Cronenberg entra com uma fala na linha spoken-word no meio da canção para o fim, substituindo Charli, que para de cantar.

Acontece que o caos pop falou mais alto. No cronograma insano de lançamentos da era do streaming, o arquivo final com os vocais e as interferências industriais de Cronenberg simplesmente não ficou pronto a tempo do fechamento da fábrica de vinis, é o que consta. Para não atrasar a distribuição global do vinil, a equipe da cantora enfrentou um dilema importante: deixar o disco com uma faixa a menos ou improvisar.

Charli, que não é uma artista dessas “normais”, escolheu o caminho mais artístico e punk possível. No lugar da colaboração perdida no silêncio do atraso industrial, ela programou nas prensagens iniciais do disco um loop infinito na ranhura final do vinil. O álbum simplesmente não acaba. Ele prende a agulha em uma espiral hipnótica de batidas e ruídos eletrônicos que se repete eternamente, até que você levante o braço do toca-discos.

Esse efeito se chama “locked groove”. Em vez do monólogo, o disco físico termina propositadamente com um sulco do vinil fechado, provocando o loop infinito repetindo a palavra “forever” para sempre, até que você levante e vá até o vinil levar o braço da vitrola para fora do disco.

No fim, ficou assim: nas versões digitais e em CD, a faixa tem a duração completa de 5,42 minutos, com Cronenberg concluindo sua longa fala com a frase “They are dead, they are gone, no one lasts forever”. Na versão de alguns vinil, com o “Forever” eterno de Charli, a música dura pouco mais de três minutos. Virou uma caça a esses vinis.

camiseta de Charli XCX vista na audição do disco, em Los Angeles

A solução do locked groove transformou um erro de prazo em um manifesto estético perfeito. O loop infinito conversa diretamente com a própria filmografia obsessiva e mecânica de Cronenberg, criando uma experiência quase física e claustrofóbica para quem ouve a versão física. Enquanto os usuários das plataformas digitais vão receber a faixa completa e polida com o diretor, os donos do vinil ganharam um pedaço exclusivo de conceito puro. É o erro de fabricação mais cool do ano.

A versão com Cronenberg aparece na íntegra, sem o looping infinito e apenas com o “Forever” quase infinito do famoso cineasta, na caixa especial de vinil, o indefectível Box Set, com encarte e versões extras. Isso segundo os fóruns de discussão na internet.

Certeza, logo mais num futuro próximo a dona do outro fenômeno, o “Brat”, vai lançar uma edição especial de “Music, Fashion, Film” com o Cronenberg doido bonitinho no vinil.

@xcx.archive

a.g. cook & finn keane talk about the locked groove on the music, fashion, film vinyl !!! #charlixcx #musicfashionfilm #charlixcxfan #agcook #vinyl

♬ original sound – XCX ARCHIVES
@ramsvinyl

such a cool effect… honestly thought the record was defective but come to find out @Charli XCX added an endless “forever” loop at the end of the record! 😱 #charlixcx #musicfashionfilm #vinyl #vinyltok #vinylunboxing

♬ original sound – ram’s vinyl

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* Outros discos de vinil que têm a técnica do “locked groove”:
The Beatles – “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967)
O mais famoso da história. No final do Lado B (após “A Day in the Life”), há um apito inaudível para humanos (mas que incomoda cães) seguido por um loop infinito de vozes e risadas desconexas gravadas ao contrário.
Pink Floyd – Atom Heart Mother (1970)
A última faixa do Lado B, “Alan’s Psychedelic Breakfast”, termina com o som de uma torneira pingando. Pra sempre.
Sonic Youth – EVOL (1986)
A música “Expressway to Yr Skull” termina com uma parede de microfonia de guitarras que fica presa no loop final, gerando um transe eterno.
Jack WhiteLazaretto (2014)
Provavelmente o vinil mais complexo já feito. O Lado B termina em um locked groove clássico, mas o Lado A toca de dentro para fora (do selo para a borda), terminando em um locked groove na borda externa do disco.
Radiohead – Kid A (2000)
Na versão original em vinil duplo de 10 polegadas, o Lado D termina com um estalido estático e atmosférico que se recusa a acabar, mantendo o clima tenso do álbum.

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